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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Ai, que monstro! exclamou D. Josefa Dias, furiosa à idéia do punho do escrevente descarregado sobre aquele ombro santo. Que monstro! Eu queria-o ver com uma grilheta a trabalhar na estrada ! Que eu é que o conhecia! A mim nunca ele me enganou... Sempre lhe achei cara de assassino!

- Estava embriagado, homens com vinho... arriscou timidamente a S. Joaneira.

Foi um clamor. Ai, que o não desculpasse! Parecia até sacrilégio! Era uma fera, era uma fera!

E a exultação foi grande quando Artur Couceiro, aparecendo, deu logo da porta a novidade, a última: o Nunes mandara chamar o João Eduardo e dissera-lhe (palavras textuais): "Eu, bandidos e malfeitores não os quero no meu cartório. Rua!"

A S. Joaneira então comoveu-se:

- Pobre rapaz, fica sem ter que comer... ,

- Que beba! que beba! gritou a Sra. D. Maria da Assunção.

Todos riram. Só Amélia, curvada sobre a sua costura, se fizera muito pálida, aterrada àquela idéia que João Eduardo teria talvez fome...

- Pois olhem, não acho caso para rir! disse a S. Joaneira. É até coisa que me vai tirar o sono.., Pensar que o rapaz há-de querer um bocado de pão e não o há-de ter... Credo! Não, isso não! E o Sr. padre Amaro desculpe...

Mas Amaro também não desejava que o rapaz caísse em miséria! Não era homem de rancor, ele! E se o escrevente viesse à sua porta, com necessidade, duas ou três placas (não era rico, não podia mais), mas três ou quatro placas dava-lhas... Dava-lhas de coração.

Tanta santidade fanatizou as velhas. Que anjo! Olhavam-no, babosas, com as mãos vagamente postas. A sua presença, como a dum S. Vicente de Paula, exalando caridade, dava à sala uma suavidade de capela: e a Sra. D, Maria da Assunção suspirou de gozo devoto.

Mas Natário apareceu, radiante. Deu grandes apertos de mãos em redor, rompeu em triunfo:

- Então já sabem? O patife, o assassino, escorraçado de toda a parte como um cão! O Nunes expulsou-o do cartório. O doutor Godinho disse-me agora que no governo civil não punha ele os pés.

Enterrado, demolido! É um alívio para a gente de bem!

- E ao Sr. padre Natário se deve! exclamou D. Josefa Dias.

Todos o reconheciam. Fora ele, com a sua habilidade, a sua lábia, que descobrira a perfídia de João Eduardo, salvara a Ameliazinha, Leiria, a Sociedade.

- E em tudo o que pretender, o maroto, há-de encontrar-me pela frente. Enquanto ele estiver em Leiria não o largo! Que lhes disse eu, minha senhoras?.,, "Eu é que o esmago!" Pois aí o têm esmagado!

A sua face biliosa resplandecia. Estirou-se na poltrona, regaladamente, no repouso merecido de uma vitória difíci1 . E voltando-se para Amélia;

- E agora, o que lá vai, lá vai! Livrou-se de uma fera, é o que lhe posso dizer!

Então os louvores - que já lhe tinham repetido prolixamente desde que ela rompera com a fera - recomeçaram, mais vivos:

- Foi a coisa de mais virtude que tens feito em toda a tua, vida!

- É a graça de Deus que te tocou!

- Estás em graça, filha!

- Enfim é Santa Amélia, disse o cônego erguendo-se, enfastiado daquelas glorificações. Pois parece-me que temos falado bastante do patife... Mande agora a senhora vir o chá, hem?

Amélia permanecia calada, cosendo à pressa; erguia às vezes rapidamente para Amaro um olhar desassossegado; pensava em João Eduardo, nas ameaças de Natário; e imaginava o escrevente com as faces encovadas de fome, foragido, dormindo pelas portas dos casais... E enquanto as senhoras se acomodavam, palrando, à mesa do chá, ela pôde dizer baixo a Amaro:

- Não posso sossegar com a idéia que o rapaz sofra necessidades... Eu bem sei que é um malvado, mas... É como um espinho cá por dentro. Tira-me toda a alegria.

O padre Amaro disse-lhe então, com muita bondade, mostrando-se superior à injúria, num alto espirito de caridade cristã:

- Minha rica filha, são tolices... O homem não morre de fome. Ninguém morre de fome em Portugal. É novo, tem saúde, não é tolo, há-de- se arranjar... Não pense nisso... Aquilo é palavreado do padre Natário... O rapaz naturalmente sai de Leiria, não tomamos a ouvir falar dele... E em toda a parte há-de ganhar a vida... Eu por mim perdoei-lhe, e Deus há-de tomar isso em conta...

Estas palavras tão generosas, ditas baixo, com um olhar amante, tranqüilizaram-na inteiramente. A clemência, a caridade do senhor pároco pareceram-lhe melhores que tudo o que ouvira ou lera de santos e de monges piedosos.

(continua...)

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