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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Mais um bocadinho!... E tão cedo! Só outra coisa, com franqueza. Ela é boa rapariga?D. Maria voltara, ao cabo do renque de álamos, recolhendo à caleche:

- Uma pontinha de gênio, para animar a existência. Mas muito boa rapariga... E uma dona decasa admirável! O primo não imagina como anda a Feitosa. A ordem, o asseio, a regularidade, a disciplina... Ela olha por tudo, até pela adega, até pela cocheira!

Gonçalo esfregou radiantemente as mãos:

- Pois se daqui a um ano se realizar o grande acontecimento hei de gritar por toda a parte quefoi a prima Maria que salvou a Casa de Ramires!

- Por isso eu trabalho, para servir o brasão e o nome! - exclamou ela, saltando ligeiramente paraa caleche, como se fugisse, arremessada aquela clara confissão.

O trintanário trepara à almofada. E enquanto os cavalos folgados largavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:

- Sabe quem encontrei em Vila-Clara? O Titó!

- O Titó?...

- Chegou do Alentejo, vem jantar consigo. Eu não o trouxe na carruagem por decência, para onão comprometer...

E a caleche rolou - entre os risos e os doces acenos com que ambos se alagavam, naquela nova concordância mais calorosa duma conspiração sentimental.

Gonçalo largou logo alegremente para Vila-Clara, ao encontro do Titó. E já o alvoroçava a idéia de colher do Titó, íntimo da Feitosa, informações sobre a D. Ana, o seu gênio, os seus modos. A prima Maria, por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para proveito dos Mendonças!), idealizava a noiva. Mas o Titó, o homem mais verídico do Reino, amando a Verdade com a antiga devoção de Epaminondas, apresentaria D. Ana sem um enfeite nem um desenfeite. E o Titó... Ah! sob o seu vozeirão troante, a sua indolência bovina, o Titó possuía um espírito muito atento, muito penetrante.

Logo à Portela os dois amigos se encontraram. E, apesar de separação tão curta, o abraço foi estrondoso.

- Ó sõ Gonçalão!...

- Ó Titozinho querido! tens feito cá uma falta enorme!... E teu irmão?

- O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapácio e muita fêmea para velho de sessenta anos. Eele lá o avisara: - "Mano João, mano João! olhe que assim sempre agarrado aos papéis velhos e às cachopas novas, o mano rebenta!" - E por cá? Essa eleição?

- A eleição agora para outubro, nos começos de outubro... De resto, sensaboria universal.Gouveia na costa, Manuel Duarte na vindima... Eu secadote, murchote, sem veia, até sem apetite.

- Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.

- Bem sei, já me disse a prima Maria, que parou um bocado na Torre... Ela está na Feitosa com a D. Ana.

Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na Feitosa, com a tentação de desabafar, logo ali na estrada, sobre o inesperado romance que desabrochara. Mas não ousou! Era um angustiado acanhamento, como a vergonha de cobiçar assim todos os restos do pobre Lucena - o Círculo e a viúva.

Então, conversando do Alentejo e do mano João (que contara muitas antigualhas maçadoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram da Portela à Torre, com tenção de estirar o passeio até aos Bravais. Mas, na Torre, Gonçalo desejou avisar a Rosa dos dois convivas inesperados, senhores de tão poderoso garfo. Entraram pela porta do pomar onde um fio lento d'água se atardava nos regueiros. Aos brados galhofeiros do Fidalgo a Rosa acudiu, limpando as mãos ao avental. O quê! dois convidados! Mesmo quatro, e mais valentes, que graças a Deus nosso Senhor o jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprara a uma mulher da Costa um cesto de sardinhas, graúdas e gordas que regalavam!... O Titó reclamou logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os dois amigos atravessavam o pátio - quando Gonçalo reparou no Bento, escarranchado no banco da latada, diante duma tigela, e areando com entusiasmo um castão de prata lavrada, que emergia de dentro duma toalha enrolada como duma bainha.

- Que castão é esse, Bento? assim embrulhado?

O Bento lentamente sacou da toalha torcida um chicote, escuro e comprido, com três arestas afiadas como as dum florete.

- Nem o Sr. Dr. sabia! Estava no sótão. Agora de tarde andava lá a escarafunchar por causaduma ninhada de gatos, e detrás dum baú dou com umas esporas de prateleira e com este arrocho...

Gonçalo estudou o maciço castão de prata, sacudiu a fina vara que zinia:

- Esplêndido chicote... Ó Titó, bem?... Afiado como um cutelo. E antigo, muito antigo, com asminhas armas... De que diabo é feito? baleia?

- De cavalo-marinho... Uma arma terrível. Mata um homem... O mano João tem um, mas comcastão de metal... Mata um homem!

- Bem - rematou Gonçalo. - Limpa e põe no meu quarto, Bento! Passa a ser o meu chicote deguerra!

(continua...)

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