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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

—A pera está madura ! —E explicou jovialmente que era uma punerlti de 48, em França, nos banquetes reformistas, quando á figura bojuda de Luiz Philippe fôra dada a alcunha de pera e as suas teimas de despota burguez lhe tinham trazido o odio publico.

Arthur, todavia, achava o partido republicano em Portugal bem desunido, bem vago, sobretudo bem limitado

Nazareno citou logo as forças de que dispunham, ainda dispersas, mas que um sentimento crescente de justiça e de progresso tendia a unir, a organisar. Fa.llou nos operarios de Lisboa, do Porto ; na pequena burguezia a que é d'instincto republicana E baixando a voz, grave pela imoortancia da revelação :

— Em Coimbra fórma-se um Club, no Porto outro, em Vizeu outro . . . — Calou-se um momento e continuou : —E depois que importa ? As idéas fazem o seu caminho sem os homens ; não são necessarios muitos homens para fazer triumphar uma idéa. Os Apostolos eram doze—e o mundo é christão !

A chuva recomeçara ; e ao fundo da calçada do Alecrirn separaram-se, quando soavam devagar ap onze horas na torre da Egreja de S. Paulo.

Arthur galgou a calçada do Alecrim, impressionado, exaltado. Decidia-se agora a abandonar todos os habitos de sociedade, as esperanças vãs em amores ficticios, a Ijf,teratura puramente lyrica : queria trabalhar para o estabelecimento da Republica, compro comedias satyricas, á Casamento de Figaro, que abalassem o velho regimen ; e vinha-lhe um desejo de se dar a todos os que soffrem, como se as palavras de Nazareno lhe tivessem nosto na alma uma tão grande energia d'amor humanitario, que só se Batisfizesse esposando a miseria universal !

E ao mesmo tempo, recordações de leituras da Historia da Revolução franceza lhe voltavam ao espirito, dando-lhe moldes para conceber attitudes, situações, enisodios : via-se brandindo uma espada, á frente d'operarios que um antigo opprobrio enchia de furor ; ou de noite, n'uma vaga sala baixa, onde vagas sombras se agitavam, decretando incendios de palacios ; ou ainda, severo, interrogando o Rei prisioneiro, como na volta de Varennes. E como os impulsos de piedade e de fraternidade lhe voltassem ao coração, olhava em redor, procurando algum pobre que soccorresse, algum opprimido a libertar. Viu apenas a patrulha cujas grossas capas d'oleado reluziam sob a chuva.

Ao entrar no Hotel, as janellas alumiadas do restaurante Silva deram-lhe a idéa de cear ; porém, pensando que áquella hora familias operarias soffriam fome, impôz-se com orgulho aquella privação, em respeito aos necessitados e n'um sentimento de vaga egualdade fraternal.

Quando entrou no quarto foi-se vêr ao espelho,

enternecido de se sentir tão bom —e vinham-lhe ao mesmo tempo bafcradas de vaidade, um antegosto de desforra, pensando que n'um dia, proximo talvez, appareceria áquella Sociedade que o ignorava e o desdenhava: poderoso, n'um terror d'apotbeose popular. Deitou-se, fez machinalmente o Signal da cruz, como tinha por habito, e adormeceu cangado.

Foi Melchior que o acordou ao outro dia, abrindo as janellas com ruido. Vinha muito jovial, e dando-lhe palmadas Dor sobre a roupa :

— Seu preguiçoso ! Upa ! Upa !

Arthur abriu á luz olhos aparvalhados de somno: estava sonhando justamente que do portal da casa da Camara, em Oliveira d'Azemeis, proclamava a Republica, ao agitar dos lenços nas janellas, entre um estalar de foguetes e os vivas furiosos da plebe libertada ; e ainda vibrante dos enthusiasmos d'aquella gala, não reconhecia a grossa figura de Melchior, de bigodes arrebitados, a face jovial e um raminho de violetas no jaquetão.

— Então porque não veio você ao pic-nic, seu typo

Arthur espreguiçou-se e disse, bocejando, que estava compromettido.

— Pois perdeu ! -— exclamou Melcnlor. — Grande patuscada ! Tudo socegadiuho, sem desordens, gem troça, em boa amizade Ceiazinha rica e belll)

CA PVPAL

fado ! Emfim, uma noitezinha cheia ! E a Concha ficou com um ferro ! Está com vontade de o conhe cer, homem ! Está em brazas por o vêr !

Arthur lamentou não ter podido . . . Tinha-se compromettido a ir a casa de L). Joanna Couti[lho

— Caspité . — exclamou Melchior, saudando-o

Muito bem. Todos muito amaveis, tinha-se divertido . . . Estava boa gente.

— Caspité ! Caspité ! — dizia Melchior, torcendo o bigode. E com um tom ambiguo, descontente, declarou que, para elle, as soir¿es eram uma estc„ pada. Nunca lá ia — não que não andassem atraz d'elle, mas . . . Aborrecia-se, que diabo ! Não havia para o regalo do corpo e da alma como uma boa pandegazinha ao Dáfundo. E então, talvez para fazer inveja a Arthur, contou as alegrias da patuscada, deu detalhes, citou episodias, fallando da Concha, da belleza da Concha, da pelle da Concha ! Mas quem é a Concha



(continua...)

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