Por Eça de Queirós (1900)
Ao rematar este duro Capítulo, depois de três manhãs de trabalho, Gonçalo arrojou a pena com um suspiro de cansaço. Ah! já lhe entrava a fartura dessa interminável Novela, desenrolada como um novelo solto - sem que ele lhe pudesse encurtar os fios, tão cerradamente os emaranhara no seu denso Poema o tio Duarte que ele seguia gemendo! E depois nem o consolava a certeza de construir obra forte. Esses Tructesindos, esses Bastardos, esses Castros, esses Sabedores eram realmente varões Afonsinos, de sólida substância histórica?... Talvez apenas ocos títeres, mal engonçados em erradas armaduras, povoando inverídicos arraiais e castelos, sem um gesto ou dizer que datassem das velhas idades!
E ao outro dia não reuniu em todo o seu ser coragem para retomar aquela sôfrega correria dos de Santa Irenéia sobre o bando escapadiço de Baião. De resto já remetera três Capítulos da Novela - já calmara as ânsias do Castanheiro. Mas a ociosidade mais lhe pesou nessa semana, arrastada pelos canapés ou por entre os buxos do jardim, fumando e tristemente sentindo que a Vida lhe fugia em fumo. Para o enervar acrescia um aborrecimento de dinheiro - uma letra de seiscentos mil réis, do derradeiro ano de Coimbra, sempre reformada, sempre avolumada, e que agora o emprestador, um certo Leite, de Oliveira, reclamava com dureza. O seu alfaiate de Lisboa também o importunava com uma conta pavorosa, atulhando duas laudas. Mas sobretudo o desolava a solidão da Torre. Todos os alegres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas. A Eleição encalhada como uma barca no lodo. A irmã decerto com o outro no Mirante. Até a prima Maria, desatendendo ingratamente o seu tímido pedido de uma "conversazinha". E ele no seu quente casarão, sem energia, imobilizado numa inércia crescente, como se cordas o travassem, cada dia mais apertadas - e de homem se volvesse em fardo.
Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio, sem mesmo parolar com o Bento, acabava de se vestir para montar a cavalo, espairecer num galope pelos caminhos de Valverde - quando o pequeno da Críspola já estabelecido na Torre como pajem, de fardeta de botões amarelos) bateu esbaforidamente à porta. - Era uma senhora que parara ao portão, dentro duma carruagem, pedia ao Fidalgo para descer...
- Não disse o nome'?
- Não, senhor. E uma senhora magra, puxada a dois cavalos, com redes...
A prima Maria! Com que alvoroço correu, agarrando no cabide do corredor um velho chapéu de palha! E embaixo foi como se contemplasse a Deusa da Fortuna na sua roda ligeira.
- Oh prima Maria, que surpresa!... Que felicidade!
Debruçada da portinhola da carruagem (a caleche azul da Feitosa), D. Maria Mendonça, com um chapéu novo enramalhetado de lilases, desculpou atrapalhadamente e rindo o seu silêncio. Recebera a carta do primo muito atrasada... Sempre o fatal carteiro, trôpego e bêbedo... Depois uns dias muito atarefados em Oliveira com a Anica, que preparava para o inverno a casa da rua das Velas.
- E finalmente, como devia uma visita em Vila-Clara à pobre Venância Rios, que tem estadodoente, achei mais simples e mais completo parar na Torre... E então?
Gonçalo sorria, embaraçado:
- Então, nada de grave, mas... É que desejava conversar consigo... Por que não entra?
Abrira a portinhola. Ela preferia passear na estrada. E ambos se encaminharam para o velho banco de pedra que os álamos abrigavam em frente ao portão da Torre. Gonçalo sacudiu com o lenço a ponta do banco.
- Pois, prima Maria, eu desejava conversar... Mas é difícil, tão difícil!... Talvez o melhor sejaatacar a questão brutalmente.
- Ataque.
- Então lá vai!... A prima acha que eu perco o meu tempo se me dedicar à sua amiga D. Ana?
Pousada de leve à borda do banco, enrolando atentamente a seda preta do guarda-solinho, Maria Mendonça tardou, murmurou:
- Não, acho que o primo não perde o seu tempo...
- Ah! acha?
Ela considerava Gonçalo, gozando a sua perturbação e ansiedade.
- Jesus, prima!... Diga alguma coisa mais!
- Mas que quer que lhe diga mais? Já lhe declarei em Oliveira. Ainda sou muito nova para andarcom recadinhos de sentimento. Mas acho que a Anica é bonita, é rica, é viúva...
Gonçalo arrancou do banco, erguendo os braços, em desolação. E, como D. Maria também se erguera, ambos seguiram pela tira de relva que orla os álamos. Ele quase gemia, desconsolado:
- Ora, bonita, viúva, rica... Para conhecer esses grandes segredos não a incomodava eu,prima!... Que diabo! seja boa rapariga, seja franca! A prima sabe, decerto já ambas conversaram... Seja franca. Ela tem por mim alguma simpatia?
D. Maria parou, murmurou, riscando com a ponta do guarda-solinho o trilho amarelado da relva:
- Pois está claro que tem...
- Bravo! Então, se daqui a um tempo, passados estes primeiros meses de luto, eu medeclarasse, me...
Ela dardejou a Gonçalo os espertos olhos:
- Santo Deus, como o primo por aí vai, a galope... Então é uma paixão?
Gonçalo tirou o seu velho chapéu de palha, passou lentamente os dedos pelos cabelos. E num imenso e triste desabafo:
- Olhe, prima! É sobretudo a necessidade de me acomodar na vida! Pois não lhe parece?
- Tanto me parece que lhe indiquei o bom pouso... E agora adeus, passa das cinco horas. Nãome quero demorar por causa dos criados.
Gonçalo protestou, suplicou:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.