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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthur, que aquelle interesse lisonjeou, descreveu-lhe logo o drama, insistindo no lado democratico — a glorificação do amante plebeu, a humilhação do marido fidalgo — occultando-lhe o elemento lyrico e romanesco do trabalho. O plano assim contado parecen satisfazer Nazareno ; porém deu-lhe conselhos : — para que dar ao protagonista, ao filho do povo, a profissão esteril e immoral de poeta lyrico Devia-o fazer engenheiro, medico, empregado d'uma companhia ; devia seduzir a duqueza, não pelo brilho do seu lyrismo, mas pela justeza das suas idéas. Comtudo, a verdadeira obra de theatro era a co media satyrica á Moli&re, a comedia aristophanesca, a exposição dos vicios, das infamias, da imbecilidade d'esta canalha lisboeta: alguma cousa de fustigante, de vergastante ! Dizia isto com um accento d'odio que lhe passava entre os dentes, e atirava vergastadas ao ar com o guarda-chuva, como se açoutasse, n'um só dorso toda uma Sociedade !

Arthur apressou-se a concordar. Essa era a sua intenção : e alargava-se em considerações sobre a Comedia Social, fazendo renascer a sympathia commum. Mesmo, para mostrar a sua veia d'observador, para desabafar os seus despeitos, pôz-se a dizer que bello acto daria a soirée de D. Joanna— uma 80irée idiota, onde fôra arrastadc e que era do melhor que havia em Lisboa » — porque não desgostava de mostrar que tinha relações aristocraticas, mesmo fazendo-lhes a caricatura. Contou a opinião dos dous homens graves sobre o Fim de D. Juan, a conversa do velho sobre a irreligião do povo, os adulterios que presentira, a grotesca figura da Viscondessa, os vicios de D. Joanna . . .

— Pouh ! — fez Nazareno com nojo. — Que sociedade, que asco ! Não, realmente, o Mathias tem razão, é humilhante luctar contra uma tal sociedade ! A lucta suppõe forças que se encontram ; mas assim, temos d'um lado a força, do outro a pustula ! Pouh ! Portugal não deve ser reformado, como diz o Damião, deve ser queimado a nitrato de prata

Estavam no Terreiro do Pago : uma lua livida deixava cahir d'entre as nuvens uma mancha luminosa sobre a agua sombria.

— Tudot isto precisa ser arrasado ! — disse ainda Nazareno, mostrando em redor as Secretarias negras, d'uma uniformidade emphatica. Tinha parado e olhava, apertando com colera o cabo do guardachuva, toda aquella reunião d'edificios officiaes, como a pesada e antiquada personificação de regimens funestos —- o Banco e o seu agio, a Alfandega e os seus direitos, os Ministerios e o seu burocratismo — e pensando no mundo estabelecido, farto, que vive d'aquellas instituições :

—E lembrar-me — exclamou — que um homem como o Mathias está reduzido, para ganhar a vida, a rever diecionarios, cartilhas e manuaes encyclopedicos ! Oh ! Dá-me vontade de vir para a rua e fazer fogo sobre toda esta gente !

Depois da sua reserva, aquella expansão de colera impressionava Arthur e as injustiças sociaes pareciam-lhe maiores, desde que podiam aquecer n'urn desespero tao alto aquella figura secca de seminarista.

Mas Nazareno calmara-se. Pôz-se então a fallar do Mathias e a sua voz tornou-se grave, quasi solemne. Mathias era um justo : era casto, era incorruptivel, d'uma alta elevação moral ; vivia n'um quinto andar, pobre, sereno ; de dia trabalhava na typographia, á noite no seu livro ; não tinha um pensamento que não fosse pela liberdade e pela revolução.

—É um Robespierre ! — resumiu Nazareno, que, com o seu espirito auctoritario e dogmatico, muito bilioso, tinha um culto pelo chefe do Club dos Jacobinos.

Arthur, electrisado, mostrou um grande desejo de o conhecer. Mas algumas gotas de chuva cahiram, e Nazareno, abrindo o guarda-chuva, prometteu que lhe fallaria. Seria mesmo possivel conseguir que o admittissem como socio do Club Republicano, Arthur experimentava Uma 2atisfação profunda. Era o seu velho ideal emfim realisa,do ! A sympathia generosa de Jacome Nazareno eornmovi2F0 : roçavase por elle, aconchegava-se-lhe, orgulhoso da sua amizade e do abrigo do seu guarda-chuva. O Mathias, o Club Republicano, a idéa vaga d'um partido, arjpareciam-lhe como alguma cousa de forte, em que a sna vida eheia de fluctuações encontra ria emfim estabilidade, regra e uma idéa elevada, cujo serviço engrandeceria a sua personalidade.

— Eu não valho muito — dizia, humilhando-se mais por ternura que por modestia — mas emfim, para escrever, para luctar . . . Se fosse necessario fundos para um jornal . . . — Offerecia-se com uma dedicação real, desejando n'aquelle momento ter para o serviço da Republica — genio, thesouros, as forças d'um leão !

A chuva cessara e Nazareno, fechando o guarda-chuva :

— Ela-de achar em que se empregar : todas as aptidões vão ser necessarias para preparar a grande barrela.

— Mas quando virá ella ? — disse Arthur oom desalento, como se lhe tardassem os vagos triurnphos, as vagas vinganças que entrevia na Republica

Nazareno parou e disse, brandindo o guarda chuva :



(continua...)

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