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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

aquela porta, fechada diante dele, deixando-o de fora, indignava o Carlos. Ali ficava, com o Pires, com o Artur, entre as inteligências subalternas, ele que prometera à Amparozinho falar de alto ao administrador! E quem era ouvido, e quem era chamado? O Domingos, um animal notório, que começava satisfação com c cedilhado! Que se podia de resto esperar duma autoridade que passava as manhãs de binóculo a desonrar uma família? Pobre Teles, seu vizinho, seu amigo!... Não, realmente devia falar ao Teles!

Mas a sua indignação cresceu, quando viu o Artur Couceiro, um empregado da repartição, na ausência do seu chefe, erguer-se da sua escrivaninha, vir familiarmente junto do réu, dizer-lhe com melancolia:

- Ah, João, que rapaziada, que rapaziada!... Mas a coisa arranja- se, verás!

João tinha encolhido tristemente os ombros. Havia meia hora que ali estava, sentado à beira daquele banco, sem se mexer, sem despregar os olhos do soalho, sentindo-se interiormente tão vazio de idéias, como se lhe tivessem tirado os miolos. Todo o vinho, que na taberna do Osório e no Largo da Sé lhe acendia na alma fogachos de cólera, lhe retesava os pulsos num desejo de desordem, parecia subitamente eliminado do seu organismo. Sentia-se agora tão inofensivo como quando no cartório aparava cautelosamente a sua pena de pato. Um grande cansaço entorpecia-o; e ali esperava, sobre o banco, numa inércia de todo o seu ser, pensando estupidamente que ia viver para uma enxovia em S. Francisco, dormir numa palhoça, comer da Misericórdia... Não tornaria a passear na alameda, não veria mais Amélia... A casita em que vivia seria alugada a outro... Quem tomaria conta do seu canário? Pobre animalzinho, ia morrer de fome, decerto... A não ser que a Eugênia, a vizinha, o recolhesse...

O Domingos de repente saiu do gabinete de sua excelência, e fechando vivamente a porta sobre si, em triunfo:

- Que lhes dizia eu? Composição! Arranjou-se tudo!

E para João Eduardo:

- Seu felizão! Parabéns! parabéns!

O Carlos pensou que aquele era o maior escândalo administrativo desde o tempo dos Cabrais! E ia retirar-se enojado (como no quadro clássico o Estóico que se afasta duma orgia Patrícia) quando o senhor administrador abriu a porta do seu gabinete. Todos se ergueram.

Sua excelência deu dois passos na repartição, e revestido de gravidade, destilando as palavras, com as lunetas cravadas no réu:

- O Sr, padre Amaro, que é um sacerdote todo caridade e bondade, veio-me expor... Enfim, veiome suplicar que não desse mais andamento a este negócio... Sua senhoria com razão não quer ver o seu nome arrastado nos tribunais. Além disso, como sua senhoria disse muito bem, a religião, de que ele é... de que ele é, posso dizê-lo, a honra e o modelo, impõe- lhe o perdão da ofensa... Sua excelência reconhece que o ataque foi brutal, mas frustrado... Além disso parece que o senhor estava bêbedo...

Todos os olhos se fixaram em João Eduardo, que se fez escarlate. Aquilo pareceu-lhe nesse momento pior que a prisão.

- Enfim, continuou o administrador, por altas considerações que eu pesei devidamente, tomo a responsabilidade de o soltar. Veja agora como se porta. A autoridade não o perde de olho... Bem, pode ir com Deus!

E sua excelência recolheu-se ao gabinete. João Eduardo ficou imóvel, como parvo.

- Posso ir, hem? balbuciou.

- Para a China, para onde quiser! Liberus, libera, liberum! exclamou o Domingos que, interiormente detestando padres, jubilava com aquele final.

João Eduardo olhou um momento em redor os empregados, o carrancudo Carlos; duas lágrimas bailavamlhe nas pálpebras; de repente agarrou o chapéu e abalou.

- Poupa-se um rico trabalhinho! resumiu o Domingos, esfregando vivamente as mãos.

Imediatamente a papelada foi arrumada, aqui e além, à pressa. É que era tarde! O Pires recolhia as suas mangas de lustrina e a sua almofadinha de vento. O Artur enrolou os seus papéis de música. E no vão da janela, amuado, esperando ainda, o Carlos olhava sombriamente o largo.

Enfim os dois padres saíram acompanhados até à porta pelo senhor administrador, que, terminados os deveres públicos, reaparecia homem de sociedade. - Então por que não tinha o amigo Silvério vindo a casa da baronesa de Via-Clara? Houvera um voltarete furibundo. O Peixoto levara dois codilhos. Tinha dito blasfêmias medonhas!... Criado de suas excelências. Estimava bem que tudo se tivesse harmonizado. Cuidado com o degrau... Às ordens de suas excelências...

Ao voltar porém ao seu gabinete dignou-se parar diante da mesa do Domingos, e retomando alguma solenidade:

- A coisa passou-se bem. É um bocado irregular, mas sensata! Bem basta já os ataques que há contra o clero nos jornais... A coisa podia fazer barulho. O rapaz era capaz de dizer que tinham sido ciúmes do padre, que queria desinquietar a rapariga, etc. É mais prudente abafar a coisa. Quanto mais que, segundo o pároco me provou, toda a influência que ele tem exercido. na Rua da Misericórdia ou onde diabo é, tem tido por fim livrar a rapariga de casar com aquele amigo, que, como se vê, é um bêbedo e uma fera!

O Carlos roía-se. Todas aquelas explicações eram dadas ao Domingos! A ele, nada! Ali ficava, esquecido no vão da janela!

(continua...)

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