Por Eça de Queirós (1900)
Por esse caminho pois não se atrevera o Bastardo!... Mas já pela senda de Poente recolhia outro almograve contando que entre cerros, num pinhal, topara um bando de bufarinheiros genoveses, retardados desde alva, porque um deles esmorecera com mal de febres. E então?... - Então, pela borda do pinheiral apenas passara em todo o dia (no jurar dos genoveses) uma companhia de truões voltando da feira de Grajelos. Só restava pois o trilho do meio, pedregoso e esbarrancado como o leito enxuto de uma torrente. E por ele, a um brado de Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas já o crepúsculo tristíssimo descia - e sempre o caminho se estirava, agreste, soturno, infindável, entre os cerros de urze e rocha, sem uma cabana, um muro, uma sebe, rasto de rês ou homem. Ao longe, mais ao longe, enfim, enxergaram a campina árida, coberta de solidão e penumbra, dilatada na sua mudez até a um céu remoto, onde já se apagava uma derradeira tira de poente cor de cobre e cor de sangue. Então Tructesindo deteve a abalada, rente de espinheiros que se torciam nas lufadas mais rijas do suão:
- Por Deus, senhores, que corremos em pressa vã e sem esperança!... Que pensais, GarciaViegas?
Todo o bando se apinhara; e uma fumarada subia dos ginetes arquejantes sob as coberturas de malha. O Sabedor estendeu o braço:
- Senhores! O Bastardo, antes de nós, galgou de escapada essa campina além, e meteu a ValeMurtinho para pernoitar na Honra de Agredel, que é bem afortalezada e parenta de Baião...
- E nós, pois, D. Garcia?
- Nós, senhores e amigos, só nos resta também pernoitar. Voltemos aos Três-Caminhos. E de lá, em boa avença, ao arraial do Sr. D. Pedro de Castro, a pedir agasalho.. A par de tamanho senhor encontraremos mais fartamente que nos nossos alforjes o que todos, cristãos e brutos, vamos necessitando, cevada, um naco de vianda, e de vinhos três golpes rijos...
Todos bradaram com alvoroço: - 'Bem traçado! bem traçado"... - E de novo, pelo barranco pedregoso, a cavalgada trotou pesadamente para os Três-Caminhos - onde já dois corvos se encarniçavam sobre o corpo do pastorinho morto.
Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no cabeço alto, alvejaram as tendas do arraial, ao clarão das fogueiras que por todo ele fumegavam. O Adail de Santa Irenéia arrancou da buzina três sons lentos anunciando Filho-de-Algo. Logo de dentro da estacada outras buzinas soaram, claras e acolhedoras. Então o Adail galopou até o valado, a anunciar às atalaias postadas nas barreiras, entre luzentes fogos de almenara, a mesnada amiga dos Ramires. Tructesindo parara no córrego escuro, que o pinheiral cerrado mais escurecia movendo e gemendo no vento. Dois Cavaleiros, de sobreveste negra e capuz, logo correram pelo pendor do outeiro - bradando que o Sr. D. Pedro de Castro esperava o nobre senhor de Santa Irenéia e muito se prazia para todo seu regalo e serviço! Silenciosamente Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e Leonel de Samora e Mendo de Briteiros e outros parentes do solar, todos sem lança ou broquel, descalçados os guantes, galgaram o cabeço até a estacada, cujas cancelas se escancararam, mostrando, na claridade incerta dos fogaréus sombrios, magotes de peões - onde, por entre os bacinetes de ferro, surgiam toucas amarelas de mancebas e gorros enguizalhados de jograis. Apenas o velho assomou aos barrotes dois infanções, sacudindo a espada, bradaram:
- Honra! honra! aos Ricos-homens de Portugal!
As trompas misturavam o clangor ríspido aos rufos lassos dos tambores. E por entre a turba, que caladamente recuara em alas lentas, avançou, precedido por quatro Cavaleiros que erguiam archotes acesos, o velho D. Pedro de Castro, o Castelão, o homem das longas guerras e dos vastos senhorios. Um corselete de anta com lavores de prata cingia o seu peito já curvado, como consumido por tamanhas fadigas de pelejar e tamanhas cobiças de reinar. Sem elmo, sem armas, apoiava a mão cabeluda de rijas veias a um bastão de marfim. E os olhos encovados faiscavam, com afável curiosidade, na requeimada magreza da face, de nariz mais recurvo que o bico de um falcão, repuxada a um lado por um fundo gilvaz que se sumia na barba crespa, aguda e quase branca.
Diante do senhor de Santa Irenéia alargou vagarosamente os braços. E com um grave riso que mais lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz de rapina:
- Viva Deus! Grande é a noite que vos traz, primo e amigo! Que não a esperava eu de tantahonra, nem sequer de tanto gosto!...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.