Por Coelho Neto (1890)
Anselmo começava a irritar-se com essa observação que lhe soava aos ouvidos com a insistência de um remorso. Diziam-lhe todos a mesma coisa. Protestou:
— Que diabo! Vocês falam tanto contra a mania do orientalismo e admiram Salammbô.
— Perdão, Salammbô não é apenas uma obra de ficção: aquela tela deslumbrante é feita com verdadeiros fios de ouro. Há ali, a par do quadro histórico de uma civilização, um largo estudo de caracteres. Salammbô tem alma. Hamilcar vive, Spendius é uma figura palpitante e o povo de bárbaros, assim como a gente púnica, não é um ajuntamento de títeres. Há naquela obra lapidária uma alma forte que vitaliza os tipos. Ainda assim, apesar de mestre Flauberv haver trabalhado aquele mármore africano com o mesmo escrúpulo com que Fídias burilava as suas figuras imortais, prefiro à grandeza deslumbrante do rútilo poema a simplicidade de Mme. Bovary. Lança os olhos à obra de Balzac. Tudo nela é humano, desde Eugenie Grandet e o Pêre Goriot até o Le lys dans la vallée. Tu mesmo, no dia em que começares a lidar com almas, hás de convencer-te da verdade. Vê a obra do que copia uma academia como se amesquinha diante de um estudo do natural. Posso falar-te assim porque conheço ambos os processos, sei quanto custa transportar para o livro uma alma surpreendida na grande vida e quanto é fácil fazer obra maravilhosa. Experimenta.
— E tu, por que escreves páginas de ficção?
— Por desfastio. Tenho uma válvula de expansão de sonhos.
— Pois é o que se dá comigo. A minha faculdade essencial é a imaginação. Vivo a sonhar, as idéias pululam no meu cérebro e sinto que são as sementes antigas que se fazem floresta. Comecei a estudar em livros orientais. Foram as Mil e uma noites a obra que mais funda impressão deixou em meu espírito quando se ia formando, depois as histórias que me contavam nos serões tranqüilos e, finalmente, as leituras. Eu procurava, de preferência nos poetas, as descrições da vida levantina — em Byron o D. João, A noiva de Abydos, o Giaour; em Gautier o seu grande mundo fantástico; em Flaubert Salammbô e assim sucessivamente. A minha imaginação, assim fecundada, foi-se desenvolvendo nesse meio e hoje sinto que, se deixar o Oriente, fico como um homem que, trazido vendado, se achasse, de repente, como por encanto, num intrincado labirinto de onde não pudesse sair por desconhecer os meandros.
É possível que, mais tarde, consiga livrar-me do que chamas a minha mania, mas deixa-me extravasar. É necessário que eu alije de mim todos os sonhos para poder empreender nova carreira. Por enquanto é impossível e não quero contrariar as tendências do meu espírito. Demais, quer-me parecer que se pode fazer obra verdadeira com o cenário faustoso. Um homem, pelo fato de andar vestido com uma cabala de seda oriental e de trazer à cinta alfanje e turbante à cabeça, não deixa de ser homem. Gautier vivia em Paris vestido à oriental. A alma é como a luz: pousa em toda a parte.
— Mas queres convencer-me de que podes descrever a vida de Bassora ou de Cacheimira como descreverias a vida do Rio Janeiro? Podes fazer o estudo sincero de um homem de Bombaim como farias de um dos sujeitos que encontramos a todo nas ruas? Podes analisar a alma de um pária?
— Posso.
— Como?
— Imaginando.
— Ah! Imaginando... E por que não hás de descrever vendo a dor triste de um homem que sofre a teu lado, cujo pranto vês cair gota a gota, cujas lamentações escutas? Não achas que assim farás obra mais completa, mais viva, mais duradoura?
— No fundo do sonho há sempre a verdade.
— Preferes então sonhar?
— Prefiro.
— Pois meu amigo, acho que fazes mal.
— Pode ser.
— Queira Deus que te não arrependas.
— Não me hei de arrepender.
— Veremos.
— Pois sim.
— Bem, vamos sair. O hotel começa a tornar-se insuportável.
— Para onde vais?
— Para a Cidade do Rio.
— Estás outra vez com o Patrocínio?
— Como secretário da folha.
— Então, até logo. Vou retocar umas páginas. Adeus. — Adeus, Ruy Vaz
CAPÍTULO XXIV
A Cidade do Rio tornou-se "o estuário do gênio indígena" como bramia o Neiva atirando bengaladas ferozes às mesas dos cafés.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.