Por Eça de Queirós (1900)
E assim, lentamente trabalhado por estas tentações, mandou uma tarde um bilhete à prima Maria, à Feitoso, pedindo - para se encontrarem, sós, nalgum passeio dos arredores, porque desejava ter com ela uma conversazinha séria e íntima..." Mas três imensos dias se arrastaram e não apareceu a almejada carta da Feitoso. Gonçalo concluiu que a prima Maria, tão esperta, farejando a natureza da conversazinha e sem uma certeza para o alegrar, retardava, se recusava. Atravessou então uma desolada semana, remoendo a melancolia duma vida que sentia oca e toda feita de incertezas. O orgulho, um pudor complicado, não lhe consentiam voltar a Oliveira, ao quarto donde implacavelmente avistaria, por sobre o arvoredo, a cúpula do Mirante com o seu gordo Cupido: - e quase o arrepiava a idéia de beijar a irmã na face que o outro babujara! Sobre a Eleição descera um silêncio de abóbada - e outra repugnância, mais acerba, lhe vedava escrever ao Cavaleiro. João Gouveia gozava as suas férias na costa, de sapatos brancos, apanhando conchinhas na praia. E Vila-Clara não se tolerava nesse meado ardente de setembro - com o Titó no Alentejo onde o levara uma doença do velho morgado de Cidadelhe, o Manuel Duarte na quinta da mãe dirigindo as vindimas, e a Assembléia deserta e adormecida sob o inumerável sussurro das moscas...
Para se ocupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto de Arte, retomou a sua Novela.
Mas sem fervor, sem veia ágil. Agora era a sanhuda arrancada de Tructesindo e dos seus Cavaleiros, correndo sobre o Bastardo de Baião. Lance dificultoso - reclamando fragor, um rebrilhante colorido medieval. E ele tão mole e tão apagado!... Felizmente, no seu Poemeto, o tio Duarte recheara esse violento trecho de bem apinceladas paisagens, de interessantes rasgos de guerra.
Logo na ribeira do Coice, Tructesindo encontrava cortada a machado a decrépita ponte cujos rotos barrotes e tabuões carcomidos entulhavam no fundo a corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo acauteladamente a desmantelara para deter a cavalgada vingadora. Então a pesada hoste de Santa Irenéia avançou pela esguia ourela, ladeando os renques de choupos em demanda do vau do Espigal... Mas que tardança! Quando as derradeiras mulas de carga choutaram na terra de além-ribeira já a tarde se adoçava, e nas poças d'água, entre as poldras, o brilho esmorecia, umas ainda de ouro pálido, outras apenas rosadas. Imediatamente Dom Garcia Viegas, o Sobedor, aconselhou que a mesnada se dividisse: - a peonagem e a carga avançando para Montemor, esgueirada e calada, para esquivar recontros; os senhores de lança e os besteiros de cavalo arrancando em dura carreira para colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do Sabedor; e a cavalgada, aligeirada das filas tardas de arqueiros e fundibulários, largou, soltas as rédeas, através de terras ermas, depois por entre barrocais, até aos Três-Caminhos, desolada chã onde se ergue solitariamente aquele carvalho velhíssimo que outrora, antes de exorcizado por S. Froalengo, abrigava no sábado mais negro de janeiro, ao clarão de archotes enxofrados a Grande Ronda de todas as bruxas de Portugal. Junto do carvalho Tructesindo sopeou a arrancada; e, alçado nos estribos, farejava as três sendas que se trifurcam e se encovam entre ásperos, lôbregos cerros de bravio e de tojo. Passara aí o Bastardo malvado?... Ah! por certo passara e toda a sua maldade - porque no respaldo duma fraga, junto a três cabras magras retouçando o mato, jazia, com os braços abertos, um pobre pastorinho morto, varado por uma frecha! Para que o triste cabreiro não soprasse novas da gente de Baião - uma bruta seta lhe atravessara o peito escamado de fome, mal coberto de trapos. Mas por qual das sendas se embrenhara o malvado? Na terra solta, raspada pelo vento suão que rolava de entremontes, não apareciam pegadas revoltas de tropel fugindo. E, em tal solidão, nem choça ou palhoça donde vilão ou velha alapada espreitassem à levada do bando... Então, ao mando do Alferes Afonso Gomes, três almograves despediram pelos três caminhos à descoberta enquanto os Cavaleiros, sem desmontar, desafivelavam os morriões para limpar nas faces barbudas o suor que os alagava, ou abeiravam os ginetes dum sumido fio d'água que à orla da chã se arrastava entre ralo caniçal. Tructesindo não se arredou de sob a ramaria do carvalho de S. Froalengo, imóvel sobre o murzelo imóvel, todo cerrado no ferro da sua negra armadura, as mãos juntas sobre a sela e o elmo pesadamente inclinado como em mágoa e oração. E ao lado, com as coleiras eriçadas de pregos, as sangrentas línguas penduradas, arquejavam, estirados, os seu dois mastins.
Já no entanto a espera se alongava, inquieta, enfadonha quando o almograve que metera pela senda de Nascente reapareceu num rolo de poeira, atirando logo o alarde de longe, com a escuma alta. A hora escassa de carreira avistara num cabeço uma hoste acampada, em arraial seguro, rodeado de estaca e vala!...
- Que pendão?
- As treze arruelas.
- Deus louvado! - gritou Tructesindo, que estremeceu como acordando. - E D. Pedro de Castro,o Castelão, que entrou com os Leoneses e vem pelas senhoras Infantas!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.