Por Coelho Neto (1890)
— Às dez.
— Ah... — fez o romancista. Pois só te digo que é uma imundície. Prefiro a fome.
— Pois eu não.
Uma manhã, como de costume, entrou Anselmo no Quinhentão. Às mesas os fregueses habituais devoravam: caixeiros de casas vizinhas, em mangas de camisa, sem gravata, mastigando com fúria, operários, estudantes. Ouvia-se o rechino das frigideiras e as moscas voejavam pousando em enxames, nas toalhas, no chão, e atirando-se à boca dos que comiam, como abelhas que investissem a aivados.
Anselmo, para não ser visto da rua, procurava sempre uma das mesas do fundo e, dando as costas à porta, empanturrava-se, ouvindo as chalaças dos caixeiros e as estrondosas gargalhadas do dono da casa, tipo acabado de Sileno, ventrudo, com uma papada roxa que se lhe derramava pelo colarinho, dando uma impressão de sórdida fartura. Quando ria toda a casa atroava. Anselmo ia sentar-se quando, olhando para um dos ângulos, rompeu a rir vendo Ruy Vaz inclinado, a devorar, com grande convicção e apetite, um último, que era o clássico bifezinho tênue, com três batatinhas mirradas. Caminhou e, diante da mesa do romancista, cruzando os braços, perguntou:
— Que é isto? Tu? Ruy Vaz levantou a cabeça e, dando com o companheiro, sorriu sem vexame. Então, sempre te resolveste?
— Ah! Meu amigo, eu faço tudo pela Arte. Senta-te. Vens almoçar?
— Sim, venho.
— Pois aqui estou. Decididamente não se pode amar a Verdade. Se o público soubesse quanto custa ser naturalista pagava os meus romances a peso de ouro. Vou às estalagens apanhar em flagrante a grande vida de tais colméias e, para que a gente não se perturbe com a minha presença, visto-me de carregador, metome em tamancos. Subo às pedreiras, penetro, com risco de vida, as reles tavolagens, passo horas e horas entre a gente tremenda dos trapiches, converso com catraieiros e, finalmente, venho comer nesta baiúca, como vês.
— Mas, então, não foi por fome?
— Qual fome! Eu podia ter ido almoçar ao Globo, mas ando acompanhando um tipo.
— E onde está ele?
— Comeu e saiu. Para que não desconfiasse, porque ele já deve ter notado que o sigo, pedi um almoço e pus-me a comer... maquinalmente.
— Quiseste também fazer um estudo do bife que aqui se dá?
— Homem, não estás muito longe da verdade. E queres que te diga? Não é tão mau como eu imaginava. É pequeno, uma amostra, mas passa. Tenho comido piores em hotéis de primeira ordem.
— As aparências iludem.
— Estou convencido. Vou agora provar o chá. Que tal?
— Hediondo e tóxico!
— Já agora... E, chamando o caixeiro com superioridade: Arranja-me um chá, com pão quente.
— Pão quente é extraordinário.
Ruy Vaz pasmou e, depois de encarar o caixeiro, que se pôs a torcer a toalha imunda:
— Extraordinário, heim!? Extraordinário és tu! E pão frio...?
— Ah! Pão ao natural?
— Ao natural?! Que diabo é pão ao natural?
— É pão que não vai ao forno.
— Homem, esse é que é extraordinário. Pois há aqui um pão que não vai ao forno?
— Para ser aquecido. Ora! O senhor está caçoando! Vá lá, diga de uma vez:
Quer ou não o pão torrado?
— Não, quero ao natural, sou naturalista. Francamente, Sr. Anselmo, isto é hediondo! É medonho! E almoças e jantas nesta casa? Quem é o teu médico?
— Não tenho.
— Pois quem come em alfurja como esta deve sempre ter um médico à cabeceira.
Anselmo sentou-se e, almoçando, expôs a Ruy Vaz o plano de um romance que tencionava publicar na Cidade do Rio: O Rei Fantasma, cuja ação se desenvolvia num reino imaginário da África.
— Por que não deixas essa mania de orientalismo, homem?
— Gosto.
— Ora, gostas... Trata de aplicar o teu espírito ao meio. Podes fazer obra magnífica sem sair da tua terra. Tens natureza, tens almas, que mais queres? Preferes lidar com títeres a lidar com homens. Nunca farás um livro verdadeiro, sentido, farás sempre obra convencional. Deixa em paz os deuses gregos e as odaliscas turcas, não te preocupes com os templos da Hélade nem com os minaretes de Stambul: põe-te em relação com a natureza da tua pátria. Tens um campo vasto de explorações — desde o sertão, quase virgem, até a rua do Ouvidor, que é o círculo central das almas brasileiras. Deixa-te de Oriente.
— Mas o romance está quase pronto.
— Pois publica-o. Mas fica nesse, não escrevas outros.
— E os contos?
— Também os contos. Queres assuntos deliciosos para contos admiráveis? Estuda o povo. A alma moderna é mais sofredora do que a antiga e a Dor é um manancial inesgotável. Deixa-te de ninfas e de faunos, trabalha com homens. Queres saber a razão por que muitos escritores preferem o orientalismo? Porque é mais fácil fazer a pompa do que a verdade: são como o discípulo de Apelles. Manda à fava essa mania e trata de fazer obra sentida.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.