Por Eça de Queirós (1925)
Nazareno, pousando o cigarro á beira do pires,
disse :
— D'aqui a quinze dias. Foi necessario pôr papel, que a parede estava ignobil.
A sua voz que Arthur ouvia pela primeira vez, tinha um timbre energico e resoluto. O doente varreu a mesa com a palma da mão, limpou os dentes com a lingua e pe:guntou mais baixo :
—O Mathias
— Tem a nevralgia hoje.
— Lá fallei com o homem d'Alcantara.
— Então
O doente estendeu o beiço, oscillou a cabeça :
— Sim, boas idéas, chega-se, mas . . , É preciso espicaçai-o. Vou mandal-o ámanhã ao Mathias !
— O Mathias ámanhã tem a nevralgia, tem sempre dous dias de nevralgia.
— Ah ! E o Damião Quando vem
Nazareno tirou do bolso um maço de papeis e mostrou-lhe uma carta. O doente leu, sorriu, mos trando as gengivas brancas e disse :
— Cousas do Damião . . . — Derramou em redor o seu olhar morbido, tossiu com fadiga e erguendo a gola do paletot :
— Vou-me chegando que está humido . . . Apparega, Nazareno.
O republicano retomara o seu jornal, mas Arthur tinha agora um pretexto, quasi o direito de lhe fallar : amigo de Damião, quereria saber se a sua ausencia se prolongaria na provincia. Animou-se, e córando, com o chapéu na mão, a voz acanhada :
— Eu peço perdão a V. Ex.a. Não tenho o gosto de o conhecer, mas . , . ouvi, sem querer, V. Ex. a, fallar no Damião. É o meu amigo intimo . De sejava saber se se demora, se , . .
— O Damião ainda tarda um mez.
Dobrou o jornal, bebeu um gole de café e ageitando as lunetas :
— Então conhece o Damião ?
Arthur apossou-se d'u.ma cadeira, estabeleceuse á mesa. Exagerou logo as suas relações com o Damião: eram intimos já desde Coimbra, tinham sido companheiros de casa, escreviam-se sempre . . , Elle até viera a Lisboa para viver com e]le . . . Infelizmente tinha partido. — Grande rapaz, hein ?
Nazareno teve um gesto de respeito sympathico, fez :
Arthur então exaltou Damião. Já em Coimbra era o centro das Intelligeneias. Era uma das fortes cabeças do paiz. E que espirito, hein ? ! E bom coracão. Não havia melhor no partido democratico —- Repetju duas vezes : o partido democratico, para se pôr com Nazareno em communhão d'idéas. Mas o republicano escutava-o. reservado, quebrando a cinza do cigarro no pires examinava-o com insistencia, pondo nos olhares, abrigados pelas lunetas defumadas, penetrações de bisturi.
— Conhece o Mathias ? — perguntou-lhe bruscamente.
Infelizmente não, e deseiava-o bem. E o snr.
Nazareno conhecia. o Fonseca Não ? Grande rapaz ! Vivia em Castello-Braüco. Ah, havia então, em Coimbra, no tempo do Pensamento, uma grande rapaziada. E havia união . . . O que faltava em Lisboa era união e —um jornal . . . ---- E surprehendido, contente da facilidade com que as palavras lhe acudiam, desforrava-se da mudez que o dominara na soirée de D. Joanna, mostrando-se ao Nazareno sob um aspecto captivante de moço enthusiasta e generoso.
O republicano respondia apenas por monosyllabos, uns sins rosnados, affirmações de cabeça.
Arthur offereceu-lhe uma alguma cousa ; Nazareno recusou tudo, mesmo um charuto. Havia em toda a sua pessoa um retrahimento, uma congelação que desanimava Arthur e lhe esbatia a verbosidade como a humidade extingue uma fogueira : teve d'accender outro charuto para occupar uma pausa. Mas Nazareno disse-lhe então :
— O senhor vive em Lisboa
Infelizmente não. Contou eom sinceridade o que o trouxera á Capital : a publicação d'urn livro de versos, a representação d'um drama, o desejo d'um meio intelligente, litterario e o horror á provincia . . .
—E que tal se pensa ua provincia Boas idéas democraticas
Arthur riu. Qual ! Estava-se tão atrazado como I no tempo dos frades. Uma collecção de pequenos burguezes, imbecis, rotineiros, cacheticos ; meia duzia de ricaços que seduzem as raparigas e fazem eleições Citou exemplos d'Oliveira d'Azemeis, não duvidando, para lisongear o republicano e ter graça, fazer a caricatura da estupidez do Carneiro, dos vicios do Rabecaz, da devoção das tias E o pobre povo . . .
— Reza e paga — disse sombriamente Nazareno. Atirou o cigarro para o fundo da chavena, carregou na copa do chapéu com a mão espalmada e ergueu-se dizendo que para conversarem era melhor irem para fóra. Havia alli gente que escutava e nem toda a gente devia ouvir. E já á porta acrescentou, aprumando a estatura :
— Que eu para os espiões tenho em casa uma, bengala soffrivel,
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.