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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Depois, uma tarde, enfastiado da solidão, ousou um passeio por Vila-Clara. E reconheceu que na Assembléia, no estanco do Simões, na loja do Ramos, os amores de Gracinha eram certamente tão ignorados como se passassem nas profundidades da Tartária. Imediatamente a sua alma doce, agora sossegada, se abandonou à doçura de tecer desculpas sutis para todos os culpados daquela queda triste... Gracinha, coitada, sem filhos, com tão molengo e insosso marido, alheia a todos os interesses da inteligência, indolente mesmo para uma costura ou bordado cedera, que mulher não cederia? à crédula e primitiva paixão que lhe brotara na alma, nela se enraizara, lhe dera as suas únicas alegrias do mundo e (influência ainda mais poderosa!) lhe arrancara as suas únicas lágrimas! O Barrolo, coitado, era o Bacoco - e como o "pilriteiro" da cantiga, incapaz de mais nobres frutos, só produzia os "pilritos" da sua Bacoquice. E ele, coitado dele, pobre, ignorado, irresistivelmente se rendera à fatal Lei de Acrescentamento, que o levara, como a todos leva na ânsia de fama e fortuna, a furar precipitadamente pela porta casual que se abre, sem reparar na estrumeira que atravanca os umbrais... Ah realmente todos bem pouco culpados diante de Deus que nos criou tão variáveis, tão frágeis, tão dependentes de forças por nós ainda menos governadas do que o Vento ou do que o Sol!

Não, irremissivelmente culpado - só o outro, o malandro da grenha ondeada! Esse, em toda a sua conduta com Gracinha, desde estudante, mostrara sempre um egoísmo atrevido, só punível como puniam os antigos Ramires, com a morte depois dos tormentos, e a carcaça posta aos corvos. Enquanto lhe agradou, na ociosidade dos longos estios, um namoro bucólico sob os arvoredos da Torre - namorara. Quando considerou que uma mulher e filhos lhe atravancariam a vida ligeira - traíra. Logo que a antiga bem-amada pertenceu a outro homem - recomeçara o cerco lânguido para colher, sem os encargos da paternidade, as emoções do sentimento. E apenas esse marido lhe entreabre a sua porta - não se demora, fende brutalmente sobre a presa! Ah como o avô Tructesindo trataria vilão de tal vilania! Certamente o assava numa rugidora fogueira diante das barbacãs - ou, nas masmorras da Alcáçova, lhe entupia as goelas falsas com bom chumbo derretido...

Pois ele, neto de Tructesindo, nem sequer podia, quando encontrasse o Cavaleiro nas ruas de Oliveira, carregar o chapéu sobre a testa e passar! A menor diminuição nessa intimidade tão desastradamente reatada - seria como a revelação da torpeza ainda abafada nas paredes do Mirante! Toda Oliveira cochicharia, riria. - "Olha o Fidalgo da Torre! Mete o Cavaleiro nos Cunhais com a irmã, e logo, passadas semanas, rompe de novo com o Cavaleiro! Houve escândalo, e gordo!" - Que delícia para as Lousadas! Não, ao contrário! agora devia ostentar pelo Cavaleiro uma fraternidade tão larga e tão ruidosa - que, pela sua largueza e o seu ruído, inteiramente tapasse e abafasse o sujo enredo que por trás latejava. Fingimento torturante - e imposto pela honra do nome! O sujo enredo bem guardado entre os mais densos arvoredos do jardim, na mais cerrada penumbra do Mirante! - e por fora, ao sol, nas praças de Oliveira, ele sempre com o braço carinhosamente enlaçado no braço do Cavaleiro!

Os dias rolavam - e no espírito de Gonçalo não se estabelecia serenidade. E sobretudo o amargurava sentir que era forçado a essa intimidade vistosa com o Cavaleiro - tanto pelo cuidado do seu nome, como pela conveniência da sua Eleição. Toda a sua altivez por vezes se revoltava: - "Que me importa a Eleição! Que valor tem uma encardida cadeira em S. Bento? Mas logo a seca Realidade o emudecia. A Eleição era a única fenda por onde ele lograria escapar do seu buraco rural; e, se rompesse com o Cavaleiro, esse vilão, vezeiro a vilanias, imediatamente, com o apoio da horda intrigante de Lisboa, improvisaria outro Candidato por Vila-Clara... Desgraçadamente ele era um desses seres vergados que dependem. E a triste dependência de onde provinha? Da pobreza - dessa escassa renda de duas quintas, abastança para um simples, mas pobreza para ele, com a sua educação, os seus gostos, os seus deveres de fidalguia, o seu espírito da sociabilidade.

E estes pensamentos lenta e capciosamente o empurraram a outro pensamento - à D. Ana Lucena, aos seus duzentos contos... Até que uma manhã encarou corajosamente uma possibilidade perturbadora: - casar com a D. Ana! - Por que não? Ela claramente lhe mostrara inclinação, quase consentimento... Por que não casaria com a D. Ana?

Sim! o pai carniceiro, o irmão assassino... Mas também ele, entre tantos avós até os Suevos ferozes, descortinaria algum avô carniceiro; e a ocupação dos Ramires, através dos séculos heróicos, consistira realmente em assassinar. De resto o carniceiro e o assassino, ambos mortos, sombras remotas, pertenciam a uma Lenda que se apagava. D. Ana, pelo casamento, subira da Populaça para a Burguesia. Ele não a encontrava no talho do pai, nem no valhacouto do irmão - mas na quinta da Feitosa, já Rica-dona, com procurador, com capelão, com lacaios, como uma antiga Ramires. Ah! sinceramente, toda a hesitação era pueril - desde que esses duzentos contos, de dinheiro muito limpo, de bom dinheiro rural, os trazia com o seu corpo, mulher tão formosa e séria. Com esse puro ouro, e o seu nome, e o seu talento, não necessitaria para dominar na Política a refalsada mão do Cavaleiro... E depois que vida nobre e completa! A sua velha Torre restituída ao esplendor sóbrio doutras eras; uma lavoura de luxo no histórico torrão de Treixedo; as viagens fecundas às terras que educam!... E a mulher que fornecia estes regalos não lhes amargava o gozo, como em tantos casamentos ricos, com a sua fealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pele relentada... Não! Depois do brilho social do dia não o esperava na alcova um mostrengo - mas Vênus.

(continua...)

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