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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Era um tipo romântico de mosqueteiro, um d'Artagnan de olhos azuis, pele branca e macia, mãos delgadas, cabelos louros, violentamente atirados para trás, bigodes impertinentes, espichados em duas pontas finas, compridas e rijas e a mosca que ele retorcia amiúde, rindo sarcasticamente, em rinchavelhada irresistível, riso percuciente, satírico que valia por uma vaia quando irrompia da platéia ou do fundo de um camarote.

Era ousado e, como brandia a bengala nodosa, esgrimindo, tinham-no por espadachim, um cavaleiro de Eon, e temiam-no.

Era um anjo, dizia o Neiva: — O Pardal anda a provocar duelos e quer sangue, quer devastação, tem fome de fígados humanos, pois mostrem-lhe aí um velho enfermo ou uma criancinha com frio e hão de ver como se desfaz em lágrimas. É até capaz de empenhar os bigodes.

Pardal não ia às conferências sem o seu revólver e uma faca na cava do colete. Todos falavam, o povo já os conhecia: eram os discípulos do Messias da raça negra.

Entre os artistas a idéia tinha fanáticos. Os Bernadelli eram dos mais entusiastas. No teatro: Dias Braga, Vasques, Guilherme de Aguiar, Arêas, Galvão, Peixoto, Mattos, Eugênio de Magalhães, Maia, Ferreira, André, Castro, Suzana,

Oudin, Balbina, Clélia. Entre os músicos Pereira da Costa, Miguez, Tavares, Nascimento, a doce Luíza Regadas, alma meiga, o rouxinol da propaganda e Francisca Gonzaga, a maestrina.

O Amazonas já se havia libertado. Não se contava mais um escravo nas margens do rio-mar e o Ceará, seguindo o exemplo da sua irmã do Norte, concluiu, num dia, a obra intrépida dos jangadeiros, iniciada nas águas pelo valoroso caboclo Nascimento.

Na serra paulista, entre as grandes árvores, crescia o quilombo de Jabaguara, engrossado diariamente por bandos foragidos que chegavam dos mais longínquos municípios da terra dos Andradas.

Era impossível sustar a marcha triunfante da idéia que vencera as represas. A tropa confraternizava com o povo e, nas duas câmaras, era grande a maioria dos abolicionistas a cuja frente destacava-se, como a de um Apolo, a válida e simpática figura de Joaquim Nabuco.

Patrocínio, desligando-se, com saudade, da Gazeta da Tarde, havia fundado a Cidade do Rio chamando Anselmo, que andava em disponibilidade, sem casa e sem botinas, escrevendo contos e fantasias à mesa dos cafés, jantando, nem sempre, parcamente, na rua Nova do Ouvidor, onde, de quando em quando, havia lautos banquetes, com discursos, a 500 réis por boca, duas moringas de água inclusive.

Esse hotel módico e discreto, pelos grandes e inolvidáveis serviços que prestou à literatura, às Artes e ainda ao funcionalismo, merece menção especial e honrosa.

Dava almoços e jantares a quinhentos réis. Mas que almoços! E que jantares! O primeiro prato era: um começo; o segundo: uma continuação; o terceiro: um último. Enquanto os Ugolinos devoravam ouviam os caixeiros que, em mangas de camisa, vociferavam: "Dois começos...! Olha três últimos...! Duas continuacões...!" Não eram abundantes os pratos nem saborosos, mas nutriam, e tanto bastava. Como havia um gabinete reservado eram ali realizados, de tempos a tempos, suntuosos festins.

Em certa ocasião, sendo a fortuna do grupo limitada e havendo-se um dos convivas excedido em libações, Fortúnio lembrou-se de substituir com água da Carioca a quantidade de outra água que havia sido ingerida; mas o caixeiro, dando pela fraude, protestou e exigiu o que não havia, porque todos os poetas juntos não valiam 220 réis. Houve larga discussão e uma bengala ficou como refém nas mãos do hoteleiro, representando um extraordinário de seis cálices. Ruy Vaz, que não se podia habituar com aquela casa sórdida, freqüentada pelo que havia de pior na cidade, rejeitava os convites que lhe faziam os companheiros.

— Não, ao Quinhentão não vou. É detestável, repugnante, cheira à graxa. Depois aqueles caixeiros irritam-me os nervos — de tamancos, imundos, sempre a bradarem continuações, como folhetins encarnados. Prefiro ficar in albis. A mesa para mim não é apenas o comedouro, deve ter algum encanto aprazível à vista. Os olhos também comem, comem os ouvidos, o nariz come e o tato igualmente. Não dispenso a baixela, os cristais, as flores e gosto de sentir nos dedos uma toalha lustrosa e um guardanapo liso... O guardanapo ali tem a cor de um esfregão, a toalha parece um pano de açougue; as moscas vêm comer com a gente à mesa e, às vezes, com tanta gana, que nos entram pela boca, e lá ficam.

— Oh! Não é tanto assim, Ruy Vaz!

— Como não é tanto assim? Aquilo é horroroso!

— Como sabes?

— Por informações. Um amigo meu, que ali jantou, comeu tais imundícies que, no dia seguinte, teve de ir ao escritório de um médico lavar o estômago com sabão.

— As feijoadas são excelentes, Ruy Vaz. Já uma vez comi chispes maravilhosos!

— Eram pés de algum dos caixeiros.

— Ora... hás de lá ir comigo.

— Eu?

— Tu, sim.

— Estás enganado.

— Pois eu vou todos os dias.

— Tu? — perguntou Ruy Vaz com espanto.

— Então?

— A que horas almoças?

(continua...)

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