Por Eça de Queirós (1875)
Dois soldados entraram então na taberna - e Gustavo julgou que eram horas de ir para a tipografia. Senão, não se haviam de separar todo o dia, não se haviam de separar toda a vida!... Mas o trabalho é dever, o trabalho é virtude!
Saíram, enfim, depois de mais shake-hands com o tio Osório. À porta, Gustavo jurou ainda ao escrevente uma lealdade de irmão; obrigou-o a aceitar a sua bolsa de tabaco; e desapareceu à esquina da rua, de chapéu para a nuca, trauteando o Hino do Trabalho.
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João Eduardo, só, abalou logo para a Rua da Misericórdia. Ao chegar à porta da S. Joaneira, apagou com cuidado o cigarro na sola do sapato, e deu um puxão tremendo ao cordão da campainha.
A Ruça veio, correndo.
- A Ameliazinha? Quero-lhe falar!
- As senhoras saíram, disse a Ruça espantada do modo do Sr. Joãozinho.
- Mente, sua bêbeda! berrou o escrevente.
A rapariga, aterrada, fechou a porta de estalo.
João Eduardo foi-se encostar à parede defronte, e ficou ali, de braços cruzados, observando a casa: as janelas estavam fechadas, as cortinas de cassa corridas; dois lenços de rapé do cônego secavam embaixo na varanda.
Aproximou-se de novo e bateu devagarinho a aldrava. Depois repicou com furor a campainha. Ninguém apareceu: então, indignado, partiu para os lados da Sé.
Ao desembocar no largo, diante da fachada da igreja, parou, procurando em redor com o sobrolho carregado: mas o largo parecia deserto; à porta da farmácia do Carlos um rapazito, sentado no degrau, guardava pela arreata um burro carregado de erva; aqui e além, galinhas iam picando o chão vorazmente; o portão da igreja estava fechando; e apenas se ouvia o ruído de marteladas numa casa ao pé em que havia obras.
E João Eduardo ia seguir para os lados da alameda - quando apareceram no terraço da igreja, da banda da sacristia, o padre Silvério e o padre Amaro, conversando, devagar.
Batia então um quarto na torre, e o padre Silvério parou a acertar o seu cebolão. Depois os dois padres observaram maliciosamente a janela da administração de vidraças abertas, onde se via, no escuro, o vulto do senhor administrador de binóculo cravado para a casa do Teles alfaiate. E desceram enfim a escadaria da Sé, rindo de ombro a ombro, divertidos com aquela paixão que escandalizava Leiria.
Foi então que o pároco viu João Eduardo que estacara no meio do largo. Parou para voltar à Sé decerto, evitar o encontro; mas viu o portão fechado, e ia seguir de olhos baixos, ao lado do bom Silvério que tirava tranqüilamente a sua caixa de rapé, - quando João Eduardo, arremessando-se, sem uma palavra, atirou a toda a força um murro no ombro de Amaro.
O pároco, aturdido, ergueu frouxamente o guarda-chuva.
- Acudam! berrou logo o padre Silvério, recuando de braços no ar. Acudam!
Da porta da administração um homem correu, agarrou furiosamente o escrevente pela gola:
- Está preso! rugia. Está preso!
- Acudam, acudam! berrava Silvério a distância.
Janelas no largo abriam-se à pressa. A Amparo da botica, em saia branca, apareceu à varanda, espavorida; o Carlos precipitara-se do laboratório em chinelas; e o senhor administrador, debruçado na sacada, bracejava, com o binóculo na mão.
Enfim o escrivão da administração, o Domingos, compareceu, muito grave, de mangas de lustrina enfiadas; e com o cabo de polícia levou logo para a administração o escrevente, que não resistia, todo pálido...
O Carlos, esse, apressou-se a conduzir o senhor pároco para a botica; fez preparar, com estrépito, flor de laranja e éter; gritou pela esposa, para arranjar uma cama... Queria examinar o ombro de sua senhoria: haveria intumescência?
- Obrigado, não é nada, dizia o pároco muito branco. Não é nada. Foi um raspão. Basta-me uma gota de água...
Mas a Amparo achava melhor um cálice de vinho do Porto; e correu acima a buscar-lho, tropeçando nos pequenos que se lhe despenduravam das saias, dando ais, explicando pela escada à criada que tinham querido matar o senhor pároco!
À porta da botica juntara-se gente, que embasbacava para dentro; um dos carpinteiros que trabalhavam nas obras afirmava que "fora uma facada"; e uma velha por trás debatia-se, de pescoço esticado, para ver o sangue. Enfim, a pedido do pároco, que receava escândalo, o Carlos veio majestosamente declarar que não queria motim à porta! O senhor pároco estava melhor. Fora apenas um soco, um raspão de mão... Ele respondia por sua senhoria.
E como o burro ao lado começara a ornear, o farmacêutico voltando- se indignado para o rapazito que o segurava pela arreata:
- E tu não tens vergonha, no meio dum desgosto destes, um desgosto para toda a cidade, de ficar aqui com esse animal, que não faz senão zurrar? Para longe, insolente, para longe!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.