Por Eça de Queirós (1900)
É que morrera a Críspola - a desgraçada viúva, vizinha da Torre, que com um rancho miúdo de dois pequenos, três raparigas, definhava no catre desde a Páscoa. E agora Gonçalo, que mantivera o casebre em fartura, andava acomodando as pobres crianças - já por cuidado dele muito asseadamente vestidas de luto. A rapariga mais velha (também Críspola), sempre encafuada na cozinha da Torre, passava regularmente a "ajudante da Rosa", com soldada. Um dos rapazes, de doze anos, espigado e esperto, também Gonçalo o empregava na Torre como andarilho, para os recados, com fardeta de botões amarelos. O outro, mole e ranhoso, mas com o jeito e o amor de carpinteirar, já Gonçalo, sob o patrocínio da tia Louredo, o colocara em Lisboa, na Oficina de S. José. Duma das outras raparigas se encarregava a mãe de Manuel Duarte, amorável senhora que habitava uma quinta formosa junto a Treixedo, e adorava Gonçalo de quem se considerava "vassala". Mas para a mais novinha e a mais fraquinha não se arranjava amparo sólido. A Rosa lembrara então - "que certamente a Sra. D. Maria da Graça recolheria a criaturinha..." Gonçalo rosnara com secura: - "Oh! por uma côdea mais de pão não se necessita incomodar a cidade de Oliveira!" Rosa, porém, enlevada na obra, desejando para pequerrucha tão franzina e loira o agasalho duma senhora, escrevera a Gracinha, pela esmerada letra do Bento, uma verbosa carta com o pedido, e toda a história lamentosa da Críspola, e louvores devotos à caridade do Sr. Doutor. E era a resposta de Gracinha, demorada mas enternecida, com a recomendação "de lhe mandarem logo a pobre criança" - que impacientava o Fidalgo.
Porque, desde a tarde abominável do Mirante, estranhamente se apoderara dele uma repugnância quase pudica em comunicar com os Cunhais! Era como se esse Mirante e a torpeza abrigada dentro das suas paredes cor-de-rosa empestassem o jardim, o Palacete, o largo d'El-Rei, toda a cidade de Oliveira, e ele agora, por asseio moral, recuasse ante essa região empestada onde o seu coração e o seu orgulho sufocavam... Logo depois da sua fuga recebera do bom Barrolo uma carta espantada: - "Que telha foi essa? Por que não esperaste? Eu, quando voltei à noite da quinta do Marges, até fiquei com cuidado. E não imaginas como a Gracinha anda nervosa! Soubemos da partida, por acaso, por um cocheiro do Maciel. Já hoje comemos os pêssegos, mas não compreendemos!...
Gonçalo respondeu secamente num bilhete: "Negócios". Depois recordou que deixara na gaveta do seu quarto o manuscrito da Novela; e mandou um moço da quinta, de madrugada, com um recado quase secreto ao Padre Soeira, "para que entregasse a pasta ao portador, bem embrulhada, sem contar aos senhores..." Entre a Torre e os Cunhais só desejava separação e silêncio.
E nos encerrados dias que passou na Torre (sem se arriscar a Vila-Clara, no terror de que a vergonha do seu nome já andasse rosnada pelo estanco do Simões ou pelo armazém do Ramos) não cessou de vibrar numa cólera espalhada que a todos varava... Cólera contra a irmã que, calcando pudor, altivez de raça, receio dos escárnios de Oliveira, tão fácil e estouvadamente como se calcam as flores desbotadas de um tapete, correra ao Mirante, ao macho da bigodeira, apenas ele lhe acenara com o lenço almiscarado! Cólera contra o Barrolo, o bochechudo bacoco, que empregava os seus bacocos dias celebrando o Cavaleiro, arrastando o Cavaleiro para o largo d'El-Rei, escolhendo na adega os vinhos mais finos para que o Cavaleiro aquecesse o sangue, ajeitando as almofadas de todos os canapés para que o Cavaleiro saboreasse estiradamente o seu charuto e a graça presente de Gracinha! Enfim cólera contra si, que, pela baixa cobiça de uma cadeira em S. Bento, abatera a única muralha segura entre a irmã e o homem da marrafa luzente - que era a sua inimizade, aquela escarpada inimizade, sempre, desde Coimbra, tão rijamente reforçada e recaiada!... Ah! todos três horrendamente culpados!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.