Por Euclides da Cunha (1902)
Por fim o rude cabecilha predispô-los, ao que se figura, a recontro decisivo, braço a braço. O seu perfil de gorila destacou-se temerariamente à frente de um bando de súbito congregado. Num belo movimento heróico avançou sobre a artilharia. Cortou-lhe, porem, o passo a explosão de uma lanterneta estraçoando-o e aos caudatários mais próximos, enquanto os demais fugiam para as posições primitivas de envolta, agora, com as avançadas da tropa. Contingentes misturados de todos os corpos saltavam afinal dentro das ultimas trincheiras à direita, perdendo o oficial que até lá os levara, Venceslau Leal.
Estava conquistada a montanha após três horas de conflito. A vitoria, porem, resultava da coragem cega junta à mais completa indisciplina de fogo — e compreende-se que mais tarde a ordem do dia relativa ao feito desse preeminente lugar as praças graduadas. Os seus cabos de guerras foram os cabos de esquadra. Sobre os jagunços em fuga confluíram cargas em desordem: soldados em grupos, turbas sem comando, disparando à toa as carabinas, num fanfarrear irritante e numa alacridade feroz de monteiros no último lance de uma batida a javardos.
Os jagunços escapavam-se-lhes adiante. Perseguiram-nos.
A artilharia, embaixo, começou a rodar, puxada a pulso, pelas ladeiras acima.
Realizara-se a travessia; e, tirante o dispêndio de munições, eram poucas as perdas — quatro mortos e vinte e tantos feridos. Em troca os sertanejos deixaram 115 cadáveres, contados rigorosamente.
EPISÓDIO TRÁGICO
Fora uma hecatombe Cumulou-a um episódio trágico. A algara tumultuária teve um desfecho teatral.
Foi no volver das últimas bicadas da serra...
Ali sobre barranca agreste, avergoada de algares, se alteava, oblíqua e mal tocando por um dos extremos o solo, imensa lajem presa entre duas outras que a sustinham pelo atrito, semelhando um dolmem abatido. Este abrigo coberto tinha, na frente, a barbacã de um muro de rocha viva. Nele se acoitaram muitos sertanejos— cerca de quarenta, segundo um espectador do quadro —provavelmente os que possuíam as derradeiras cargas dos trabucos.
A terra protetora dava aos vencidos o último reduto.
Aproveitaram-no. Abriam sobre os perseguidores um tiroteio escasso, e fizeram-nos estacar um momento, fazendo parar, mais longe, a artilharia que se aprestou a bombardear o pequeno grupo de temerários.
O bombardeio reduziu-se a um tiro. A granada partiu levemente desviada do alvo, e foi arrebentar numa das junturas em que se engastava a pedra. Dilatou-a. Abriu-a, de alto a baixo.
E o bloco despregado desceu pesadamente, em baque surdo, sobre os infelizes, sepultando-os...
Reatou-se a marcha. Adiante, numa exaustão crescente, percebida no rarear dos tiros, os últimos defensores do Cambaio tocavam para Canudos. Desapareceram, por fim.
CAPÍTULO IV
NOS TABULEIRINHOS
As colunas chegaram à tarde em Tabuleirinhos, quase a orla do arraial, e não prosseguiram aproveitando o ímpeto da marcha perseguidora. Combalidos da refrega e famintos desde a véspera, tiveram apenas abrandada a sede na água impura da lagoa minúscula do Cipó, e acamparam. Fizeram-no, porém, com o desleixo das fadigas acumuladas e, talvez, também com a ilusão enganadora do triunfo recente. De sorte que não pressentiram, em torno, a sobre-rolda dos jagunços. Porque a nova da investida chegara ao arraial com os foragidos; e para quebrar o ímpeto do invasor sobrestante, grande numero de lutadores de lá partiram.
Meteram-se, imperceptíveis, pelas caatingas; e aproximaram-se do acampamento. À noite circularam-no. A tropa adormeceu sob a guarda terrível do inimigo..
SEGUNDO COMBATE
Ao amanhecer, porém, nada lho revelou; e, formadas cedo, as colunas dispuseram-se ao último arranco sobre o arraial, depois de um quarto de hora e marche-marche sobre o terreno, que ali é desafogado e chão.
Mas antes de abalarem sobreveio ligeiro contratempo. Um schrapnel emperrara na alma de um dos canhões resistindo a todos os esforços pare a extração. Adotou-se, então, o melhor dos alvitres: disparar o Krupp na direção provável de Canudos.
Seria uma aldravada batendo às portas do arraial, anunciando estrepitosamente o visitante importuno e perigoso.
De fato, o tiro partiu... E a tropa foi salteada por toda a banda! Reeditou-se o episódio de Uauá. Abandonando as espingardas imperfeitas pelos varapaus, pelos fueiros dos carros, pelas foices, pelas forquilhas, pelas aguilhadas longas e pelos facões de folha larga, os sertanejos enterreiraram-na, surgindo em grita, todos a um tempo, como se aquele disparo lhes fosse um sinal prefixo para o assalto.
Felizmente os expedicionários, em ordem de marcha, tinham prontas as armas para a réplica, que se realizou logo em descargas rolantes e nutridas.
Mas os jagunços não recuaram. O arremesso da investida jogara-os dentro dos intervalos dos pelotões. E pela primeira vez os soldados viam, de perto, as faces trigueiras daqueles antagonistas, até então esquivos, afeitos às correrias velozes nas montanhas...
A primeira vítima foi um cabo do 9.°. Morreu matando.
Ficou trespassado na sua baioneta o jagunço que o abatera atravessando-o com o ferrão de vaqueiro.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.