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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

O boêmio guiava como pastor o grande e infeliz rebanho humano. Já haviam chegado os batelões que deviam transportar a leva para a ilha das Flores. Os rebocadores faziam ruído espadanando, e a negralhada chacoteava dos batelões, rindo da pobre gente que descia aos rebolões pela escada oscilante do navio, apinhando-se nos transportes, como animais. As mulheres, sobraçando trouxas, rezingavam dando safanões nas crianças que seguiam receosamente, quase de rastos. Os homens levavam as cargas: canastras, cofos, redes enroladas, gaiolas de pássaros, a viola. E todos falavam, gritavam uns pelos outros, procuravam-se com ânsia. Às vezes, do meio da escada, tornavam ao navio, gritando:

— Mariazinha! Eh, muié... caminha! E lá iam a correr precipitadamente, e o Neiva sempre a animá-los:

— Vamos! Vamos! O outro tem de atracar. Vivo com isso. Nada de choros; ninguém vai morrer. Vamos! E o rebanho infeliz descia chapinhando na lama do convés, onde havia detritos imundos, trapos, cascas de frutas e trouxas sórdidas.

Vamos! Não há tempo.

Por fim o batelão cheio, entupido de gente, tão sobrecarregado que as bordas iam quase rentes de água, começou a mover-se lentamente, arrastado por um rebocador e do meio sinistro daquele povo, que o sol inclemente havia banido da terra natal, como de um só peito, foi subindo, dolentemente, uma cantiga sertaneja. E o batelão seguia. Os de bordo acompanhavam-no com os olhos entristecidos. E o canto magoado foi crescendo, tornando-se mais forte, mais forte, enchendo os ares, e, sob o azul do céu, na mansidão daquelas águas lisas, por muito tempo não se ouviu outro ruído. Os próprios catraieiros indiferentes calaram-se escutando, com piedoso interesse, a canção do êxodo, hino triste do campo abandonado, lírica suave da terra que além ficara, canto do monte e do campo, doce e rústica poesia que lembrava o para sempre perdido, a doce província das palmas verdes, dos verdes mares, inclemente e sempre amada.

E lá ia, já longe, o batelão, o canto, porém, parecia estar ali perto, dentro do navio... e estava! Porque os que haviam ficado, esperando que atracasse o outro batelão, filhos da mesma terra, vítimas da mesma dor, repetiam, como em eco, a mesma cantilena.

Ah! Seu Anselmo!... — disse apenas o Neiva com a voz presa e os olhos arrasados de água.

CAPÍTULO XXIII

A idéia da abolição ia ganhando terreno: a palavra "escravocrata" tornou-se um labéu, até fazendeiros faziam garbo em dizer-se abolicionistas e, quase diariamente, chegavam cartas do interior e notícias que eram publicadas nos jornais, precedidas de comentários lisonjeiros anunciando que fulano ou beltrano libertara todos os seus escravos, conservando-os na fazenda como colonos.

Com a partida do imperador para a Europa, começando a regência da princesa Isabel, logo correu que o monarca, compreendendo que a idéia republicana começava a impor-se, ameaçadora e forte, deixara a filha no poder com instruções para que assinasse o decreto que o povo, do Norte ao Sul, reclamava, julgando que, assim, criando uma corrente simpática, manteria a dinastia ameaçada pela temerária propaganda republicana que tinha em Silva Jardim o principal campeão.

Aos domingos o povo enchia o "Recreio", onde os mais ardentes abolicionistas iam protestar do palco e dos camarotes em discursos inflamados contra o cativeiro reclamando, com ameaças ao trono, a abolição imediata e incondicional.

Patrocínio, com a sua palavra, fogosa, em reptos de eloqüência, fazia a descrição da vida infeliz dos escravos. "Nos verdes pastos ubérrimos andavam as ovelhas com as suas crias, as mães negras entanto, eram separadas dos filhos, que ficavam vagindo no fundo das senzalas enquanto as miserandas, com os peitos pojados e os olhos inundados de lágrimas, ao sol inclemente, zurzidas pelo vergalho do feitor, iam capinando as ruas dos cafezais. O esposo negro sofria calado todas as injúrias, até a desonra. Alguns, mais violentos, arremetiam armados caindo sobre os miseráveis que os infamavam e, ensangüentados, fugiam para as brenhas, onde levavam vida selvagem, de feras, encurralados em cavernas; outros buscavam a morte e, as vezes, quando as turmas seguiam para o serviço, estacavam perto de uma árvore de onde pendia, oscilante, o corpo de um parceiro.

Nos 'troncos' gemiam vítimas; e muitos caminhavam arrastando algemas pesadas e, com gargalheiras, como galés, trabalhavam pela frutificação, fecundando a terra que iam regando com suor e lágrimas."

Quantas vezes era a palavra flamejante do tribuno cortada pelos apartes dos secretas, que se metiam entre o povo para perturbar o propagandista com assuadas e ameaças. Quase sempre, porém, eram repelidos à bengala, à pedra, às vezes à bala, abandonando o teatro diante da fúria da multidão e o orador, serenando o tumulto, continuava, anunciando para muito breve "a grande misericórdia".

Todos os moços acompanhavam-no: Octavio Bivar, Luiz Moraes, Fortúnio, Neiva, Ruy Vaz, Anselmo e Pardal que chegara do Recife com dois romances, uma gravata sangüínea, idéias explosivas e a carta de bacharel.

(continua...)

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