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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Aquellas palavras bruscas escandalisaram Arthur : lembrou-se com despeito das dez libras emprestadas — resolveu exigir-lh'as. Detestava agora o Meirinho, D. Joanna, a Sociedade, Lisboa, e vestia na saleta o seu paletot, quando viu com terror que lhe esquecera o claque, na sala, sobre a poltrona. Despiu de novo o paletot, desesperado, e voltou á sala. Que raiva ! Uma senhora robusta, a quem chamavam familiarmente a viscondessa » sentara-se na poltrona ! Ainda pensou que ella tivesse visto o claque, o tivesse atirado para outra cadeira ao pé : não — gorda, enorme, com uma espessura tremenda de saias e de folhos, sentarase, sem o sentir, em cima do claque chato ! Ficou aniquilado. Como ousaria pedir áquella magestosa senhora «que se erguesse, que queria o seu chapéu» Pensou que se levantaria em breve, libertando assim o seu claque e perfilou-se um momento junto hombreira da porta ; depois, foi vêr todas as photographias nos gala onde o cavalleiro de bronze erguia a sua esl ada; foi examinar os livros n'uma estante envidraçada ; não se atrevia a consultar o Meirinho, Padilhio valsava, Carvalhosa sahira. Decidiu então dizer á Viscondessa um dito espirituoso, origmal, que a fizesse logo erguer, rindo, amavel, encantada, mas acudia-lho apenas a phrase natural, goeca : «a senhora está em cima do meu chapéu!) De repente lembrou-lhe que talvez fosse uma partida : queriam escarnecel-o, tortural-o; um sopro de orgulho, de revolta, sacudiu-lhe a vontade: não! Iria á Hala, faria levantar aquelle enorme corpanzil de matrona obesa, e se visse uma face d'homem sorrir, espalmar-lhe-ia uma bofetada! Voltou á sala, resoluto, mas ficou logo inerte, acabrunhado, vendo a Viscondessa immovel, com o seu grande nariz bourbonico muito lustroso, cercada do rapaz de pince-nez, do somnambulo, do magrito !

Teve desejos homicidas ; sentia-se tão desgragado que se lhe humedeceram os olhos. Sem motivo, de repente, lembrou-se da sua e enternecido voltou á sala amarella, atirou-se para o sofá com a cabeça entre as mãos.

Um frou-frou ô&ias roçou o tapete e uma voz disse :

— Está incomm odado

Era D. Joanna, pelo braço do barão. Arthur

ergueu-se bruscamente, explicou que tinha uma enxaqueca . . .

Sim, com effeito, na sala dentro estava um calor , . . Mas não consentiam que se abrisse uma vidraça O ar fazia-lhe bem. E accrescentou :

— Ah, se espera pelo Meirinho, olhe que elle não larga o whist senão alta noite.

E Arthur, atarantado, pensando vagamente que D. Joanna o expulsava :

— Ah, eu vou já, não me demoro .

Ella estendeu-lhe a mão :

— Espero tornar a ter o prazer Ás terças-

feiras • •

Arthur, só na sala, pensava: e o chapéu? Agora que se despedira de D. Joanna não podia voltar a immobilisar-se na hombreira da porta, esperando que a Viscondessa se levantasse. E poderia explicar que o seu claque estava debaixo das gorduras da excellente senhora Ririam, geria prodigiosamente grotesco.

Com uma esperança voltou á sala : lá estava a Viscondessa, repimpada, as mãos gordas no regaço, estabelecida, palrando com a sua voz nasal. D. Joanna Coutinho, essa, pareceu surprehendida de o vêr e muito amavel :

— Perdeu alguma cousa

— Não, — acudiu — era o Carvalhosa

— Ah, foi-se ! Aquelle ingrato, está um moa anento e desapparece , . .

Arthur inclinou-se e sahiu. Estava farto, que diabo ! Vestiu o paletot e desceu a escada sem chapéu ; mas ficou aterrado : no pateo, havia dous trintanarios de casacos brancos e um cocheiro de praça. Tornar a subir ? Não ! Retesou a vontade, dirigiu-se para o portão, emquanto o creado attonito, abria devagar a grossa fechadura. Sentia por traz risinhos fungados, a chave perra parecia resistir. Arthur tremia de raiva, de vexame ,• — emfim a porta massiça rolou, e uma frialdade humida. envolveu-lhe a cabeça : choviscava.

Então amarrou o lenço com um nó debaixo do queixo e cosido com as casas, querendo enterrar-se na escuridão, apressou-se, correndo quasi, com a chuvinha miuda fustigando-lhe o rosto, a garganta tumida de lagrimas. Mas perdeu-se, vagueou palo Rato, pelo Salitre ; pessoas paravam, assombradas d'aquelle individuo cujos passos pareciam d'ebrio, com um lenço apertado na cabeça ! Na rua da Escola, encontrou um trem que recolhia : atirou-se para dentro, gritou :

— P'r'o

Que allivio ao pisar o tapete do quarto ! Despiu a casaca com uma colera impaciente, arrancou bruscamente a gravata, como se quizesse arrojar de si, com a toilette que lhe representava a soiréé odiosa, todos os seus desejos de sociedade, d'encontros amorosos em salas aristocraticas . . .



(continua...)

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