Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo, no jardim, ainda tardou por entre os alegretes, compondo para o casaco um ramo de flores ligeiras. Depois rodeou a estufa, sorrindo da porta com que o Barrolo a enriquecera, uma porta envidraçada, arqueada em ferradura, com um monograma de cores rutilantes; e meteu pela rua que conduzia ao repuxo, coberta de silêncio e penumbra pela rama enlaçada dos seus altos loureiros. Adiante, circundado de bancos de pedra, de árvores de aroma e flor, cantava dormentemente o fino repuxo num tanque redondo, de borda larga, onde se espaçavam grossos vasos de louça branca com o brasão ramalhudo dos Sás. Certamente na véspera ou de manhã se lavara o tanque, porque na água muito transparente, sobre as lajes muito claras, nadavam com redobrada vivacidade, em lampejos rosados, os peixes que Gonçalo assustou mergulhando e agitando a bengala. E daquela borda do tanque já ele avistava ao fundo de outra rua, debruada de dálias abertas, o Mirante - uma construção do século XVIII, simulando um Templozinho grego, cor de rosa desbotado, com um gordo Cupido sobre a cúpula, e janelinhas de rocalha entre o meio-relevo das colunas caneladas por onde trepavam jasmineiros.
Gonçalo arrancou, como costumava, folhas dum ramo de lúcia-lima para esmagar e perfumar as mãos; e continuou para o Mirante, vagarosamente, por entre as dálias apinhadas. Na aléia, novamente ensaibrada, os sapatos finos de verniz que calçara pousavam sem rumor no saibro mole. E assim, num silêncio de sombra indolente, se acercou do Mirante - e duma das janelinhas que, mal cerrada, conservava corrida por dentro a persiana de tabuinhas verdes. Rente dessa janela era a escada de pedra, que, do elevado e comprido terraço sobre que se estendia o jardim, comunicava com a encovada rua das Tecedeiras, quase em frente à Capela das Mônicas. E Gonçalo, sem pressa, descia - quando, através da persiana rala, sentiu dentro do Mirante um sussurro, um cochichar perturbado. Sorrindo, pensou que alguma das criadas da casa se refugiara nesse Templozinho de Amor com um dos sargentos terríveis de Cavalaria,,, Mas, não! impossível! Pois se, momentos antes, Gracinha roçara aquela janela e pisara aquela escada, no seu caminho para as Mônicas! E então outra idéia o varou como uma espada - e tão dolorosa que recuou com terror da beira do Mirante donde ela perversamente o assaltara. Já porém uma desesperada curiosidade o agarrara, o empurrava - e colou a face à persiana com a cautela de um espião. O Mirante recaíra em silêncio - Gonçalo temia que o traíssem as pancadas do seu coração... Santo Deus! De novo o murmúrio recomeçara, mais apressado, mais turbado. Alguém suplicava, balbuciava: - "Não, não, que loucura!" - Alguém urgia, impaciente e ardente: - "Sim, meu amor! sim, meu amor!" E a ambos os reconheceu - tão claramente como se a persiana se erguesse e por ela entrasse toda a vasta claridade do jardim. Era Gracinha! Era o Cavaleiro!
Colhido por uma imensa vergonha, no atarantado pavor de que o surpreendessem junto do Mirante e da torpeza escondida - enfiou pela rua das dálias, encolhido, com os sapatos leves no saibro mole, costeou o repuxo por sob a ramaria dos arbustos, remergulhou na escuridão dos loureiros, deslizou sorrateiramente por trás da estufa - penetrou no sossego do Palacete. Mas o murmúrio do Mirante ainda o envolvia, mais desfalecido, mais rendido - "Não, não, que loucura!... Sim, sim, meu amor!..."
Abalou através das salas desertas como uma sombra acossada; escorregou abafadamente pela escadaria de pedra, varou o portão numa carreira, espreitando, com medo do Joaquim da Porta. No largo parou, diante da grade do relógio do sol. Mas o sussurro do Mirante errava por todo o largo como um vento enroscado, raspando as lajes, batendo as barbas dos Santos sobre o portal da Igreja de S. Mateus, redemoinhando nos telhados musgosos da Cordoaria...- "Não, não, que loucura! Sim, sim! meu amor!" Então Gonçalo sentiu a ansiedade desesperada de escapar para longe, para imensamente longe do largo, do Palacete, da cidade, de toda aquela vergonha que o trespassava. Mas uma carruagem?... Pensou na alquilaria do Maciel, a mais retirada, para além das últimas casas, na estrada do Seminário. E cosido com os muros baixos dessas ruas pobres, correu, mandou engatar uma caleche fechada.
Enquanto esperava à porta, num banco, passou pela estrada uma lenta carroça com móveis, panelas de cozinha, um grande colchão onde se alastrava uma nódoa. Bruscamente Gonçalo recordou o divan que guarnecia o Mirante. Era enorme, de mogno, todo coberto de riscadinho, com molas lassas que rangiam. E de repente o murmúrio recomeçou, cresceu, rolando com fragor de trovão por sobre os casebres vizinhos, por sobre a cerca do Seminário, por sobre
Oliveira espantada: - "Não, não, que loucura! Sim, sim, meu amor!"
Com um salto, Gonçalo gritou para dentro, para a cavalariça escura:
- Então, que inferno! não acaba, essa carruagem?
- Já a largar, meu Fidalgo.
No relógio da Piedade sete horas batiam - quando ele se atirou para a caleche, e fechou os stores perros, e se enterrou no fundo, bem sumido, esmagado, com a sensação que o Mundo tremera, e as mais fortes almas se abatiam, e a sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando dentro um montão ignorado de lixo e de saias sujas.
IX
À porta da cozinha, sacudindo um sobrescrito já amarrotado, Gonçalo ralhava com a Rosa cozinheira:
- Oh Rosa! pois tanto lhe recomendei que não escrevesse à mana Graça?... Que teimosa! Então não arranjávamos a pequena, sem essas lamúrias para Oliveira? Graças a Deus, a Torre é larga bastante para mais uma criancinha!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.