Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Eh! Patrício...! Você era vaqueiro?

O caboclo acenou com a cabeça que sim, e continuou a assobiar. Anselmo apartou-se querendo ver miudamente aquele quadro sinistro de miséria. O navio lembrava a jangada da Medusa: os homens, com raras exceções, tinham fisionomias espectrais, como se viessem de urna longa tortura. Junto à amurada descobriu uma velhinha encarquilhada, encolhida nos andrajos, o cachimbo nos beiços, olhando a fito. Parecia uma bruxa em evocação.

— E! Velha! A megera meneou com a cabeça tristemente, como se o saudasse. Você veio só, minha velha? Ela acenou negativamente. Veio com seu marido? Ela riu num pincho... Com seu filho?

— Muié... disse ela.

— Sua filha?

— Hen-hen.

— Que é dela?

— No má... eles botaram no má.

— Morreu?

— Hen-hen...

— De que, velha?

Encolheu os ombros e repetiu:

— Botaram no ma.

— E você não tem mais parentes aqui?

— Nhôr não.

— Nem conhecidos?

— Nhôr não.

— Está só?

— Nhôr sim.

— Como te chamas?

— Maria Nazareth.

— De onde és?

— De Sobrá.

— Que idade, velha?

— Não sei... não sei mais. Oie, idade tá aqui, moço. E puxou uma falripa branca.

Adiante estava um pequenote de pernas finas, quase nu, com um cachimbo nos beiços e uma mulher nova, sentada na rede, com o peito descoberto, amamentava um monstrengo encarquilhado.

Deslizando sobre a lama escorregadia que, em espessa camada, empastava o navio, Anselmo foi seguindo lentamente, detendo-se diante dos grupos, a olhar, a interrogar.

Junto à amurada uma família olhava a cidade, ao longe, muito branca, reverberando ao sol com o casario acumulado, as torres agudas das igrejas hirtas como que espetando o céu e o fundo de montanhas em recortes irregulares, sob uma pulverização de ouro. Como que vinha na brisa o grande rumor da vida agitadíssima daquele pandemônio, misterioso para os sertanejos que chegavam dos campos e das serras, tendo deixado a grande e rude natureza agreste.

No mar também era incessante o movimento de botes e de lanchas. Faluas corriam a todo o pano, outras passavam arrastadas pelos rebocadores. Um grande transatlântico saia partindo o mar, deixando um fundo sulco nas águas lisas, que logo inchavam em ondas, nas quais subiam e baixavam os leves botes mercantes. Os couraçados, quietos como ilhas, pareciam embandeirados: era a roupa da maruja que secava à proa, e as grandes barcas como casas errantes, cruzavam-se serenas em caminho para Niterói e outras para a Corte. E eram silvos e uivos e dos botes que atracavam ao paquete subia gente ansiosa. Um empregado da Alfândega, de boné, falava ao comandante e um velha mulher, que entrara com grande espalhafato, ia e vinha atordoada, fazendo momos de nojo, a olhar de esguelha os miseráveis que recordavam a terra, abandonada.

Terra simples, mas bem mais formosa para eles do que a grande cidade que aparecia além alvadia, luminosa, de uma grandeza imponente.

Anselmo deteve-se junto da família rústica e um velho, tipo patriarcal, fisionomia bíblica, longa barba a descer-lhe do rosto macilento ao peito côncavo, dando com ele, sorriu, fazendo um leve aceno de cabeça:

— Deus salve a vosmicê. Que coisa é aquela ali, moço? Aquilo no meio das casas que parece um ovo, mal comparando.

— É a Candelária.

— Cumu é, mái? — perguntou curiosamente, com os olhinhos muito vivos, uma rapariguinha já púbere, dirigindo-se à velha cabocla que, de cotovelos fincados na amurada, o rosto nas mãos, olhava perdidamente.

— Eu sei, muié...

— O moço está falando.

— Apois... E continuou na mesma posição contemplativa. — É uma igreja, explicou Anselmo.

— Ahn...

— Igreja? — perguntou a rapariga.

— Sim.

— É igreja, mãi.

— É sua filha? — perguntou Anselmo.

— Nhôr sim, esses todos; e unzinho ficou lá. E os olhos da filha elevaram-se para o céu, como se o pequenino filho perdido lá andasse pela altura azul.

Cantavam perto uma cantilena melancólica. Ó noites serenas luar do Norte, ó ameníssimos serões nas serras, ó descantes varandas, enquanto o gado recolhido muge! Que saudade! uma voz atroou:

— Vamos, gente! Nada de choro! Isto aqui é a nossa terra, somos todos irmãos. Toca a embarcar. Vivo! Vivo! Anda, velho! Vocês nem parecem do Ceará, terra de jangadeiros. Onde se viu um cearense ter medo do mar? Vamos! Vamos! Era o Neiva.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8990919293...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →