Por Eça de Queirós (1925)
Ella olhou para Arthur um pouco de lado, e Padilhão, muito correcto, apresentou-o :
—O meu amigo Arthur Corvello. E agora accrescentou— vou vêr o D. Frederico que tem pere dido e está furioso Au revoir, snr. a baroneza !
Arthur, vermelho, procurava uma palavra, quí do ella reparando n'uma das photographias, lh'a mostrou :
— É Rochefort, não é ?
Arthur, quasi inconscientemente, soltou :
— Grande apepinador !
E, espantado, aterrado d'aquella phrase quasi obscena, que lhe sahira involuntariamente, como um arroto, sentiu a vergonha esbrasear-lhe a pelle, pôr-lhe um suor nas mãos, immobilisal-o. Viu os dous sujeitos que passeavam pararem junto da baroneza : mas atravez do zumbido que lhe enchia os ouvidos, as suas vozes chegavam-lhe apenas como um murmurio remoto ; percebeu vagamente que fallavam do Fim de D. Juan — o poema recente d'um poeta illustre. A baroneza, que justamente o lera n'essa manhã, não gostava achava que tinha paginas incomprehensiveis ; o individuo magrinho atacava o livro : não que o tivesse lido, oh não ! — não tinha tempo para se occupar de versos, de romances, de litteratura — mas va-lhe que estava recheado d'immoralidades e de idéas de Communa . . . O individuo soj nnambulo, esse, parecia procurar uma phrase na lanpada Carcel, no penteado da baroneza, no peitilho da sua propria camisa, com olhares d'uma ancia abstracta • não a achou e passou os dedos devagar pela testa enorme, com uma lentidão cheia d'agonia emquanto o magrinho continuava a fallar : parecia furioso com as idéas novas, os livros novos, os rapazes novos ! Era d'opinitío que o Gove no devia inter vir. O somnambulo, com um esforço que lhe entumeceu mais o rosto, disse por fim, n'uma voz espesga, crassa :
— É todavia um rapaz bastan(e profundo ! — teve outro esforço e murmurou n'um tom cavernoso : — Dizem-me que tem muito i undo !
Era possivel — mas a senhora btroneza preferia a todo o Fim de D, Juan, uma sim) )les quadra das Flores da Alma : « As flores d'alma que se alteiam betlas
— Ah ! — disseram ambos, cone)rdando impetuosamente.
As palavras que chegavam por frffgmentos a Arthur, atravez da sua turbação, faziam- lhe entrevêr na senhora baroneza leitura, curiosida des artisticas, um gosto formado, e a sua phrase : grande apepinador! parecia-lhe então mais estupida, mais torpe !
Ergueu-se subtilmente, encolhido de vexame, o foi-se refugiar, com a cabeça a arder: na sala amarella, deserta, onde as luzes das serpei Itinas erguiam grandes chammas direitas. Atirou-se para o sofá, dando uma punhada no joelho, eom um oh! de raiva, O que lhe fizera partir dos Iqbios aquella palavra abjecta ? Elle, que ao nome de Rochefort sentira apertarem-se-lhe no cerebro apreciações ori ginaes, pittorescas ! E era áquella mulher, formosa, toda vestida de sêda amarella, com uma carnação tão pura e que tinha a magestade d'um marmore, que atirara uma tal chulice! Apresentado como um poeta, um estylista, um delicado, abria os labios e soltava uma sandice obscena, elle, que mesmo entre homens, quando se desabotoam os colletes e se fala n'uma fumaraça de cigarro, tinha sempre uma correcgão honesta d'expressões ! . . . Oh ! Que pensaria ella ? Que diria D. Joanna ?
Sons de piano tiraram-no da sua modorra. Ergueu-se: o seu rosto, no espelho, pareceu-lhe envelhecido, parvo, e com o claque collado á coxa, chegou-se á porta da sala. Valsava-se.
D. Joanna que passava pelo braço do barão, um rapazote gordinho e baixo, de collarinho muito decotado e barbinha rala — parou e voltando o rosto para Arthur :
— Quizeram antes valsar. Raparigas ! . . . Mas n'outra noite, espero ter a oceasião de o ouvir . . .
Tire par para uma valsa Arthur fez-se escarlate :
— Eu não valso.
Para uns lanceiros então
— Não, obrigado, não danco ,
Tornou a mastigar em secco e pareceu readormecer.
Os sapatos de verniz começavam a torturar Arthur : decidiu partir e foi á sala de jogo, chamar o Meirinho. Ao vêl-o, o sujeito d'oculos teve um movimento de terror e Meirinho que perdia agora, muito vermelho, respondeu com impaciencia :
— Aqui cada um sahe quando quer !
E agarrou as cartas, furioso.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.