Por Eça de Queirós (1900)
Pois desde essa tarde ele sempre almejara por uma oportunidade de mostrar ao Sr, Gonçalo Mendes Ramires o seu reconhecimento, a sua simpatia, Mas quê! era tímido, vivia muito retirado,,, Nessa manhã, porém, em Vila-Clara, soubera pelo Gouveia que S, Exa. se apresentava Deputado pelo Círculo, Apesar de ser eleição tão segura, já pela influência do Sr, Ramires, já pela influência do Governo, logo pensara: - "Bem, aí está a ocasião!" E agora oferecia a S. Exa., na freguesia de Canta-Pedra, o seu préstimo e os seus votos.
Gonçalo murmurou, enternecido:
- Realmente, Sr. Visconde, nada me podia sensibilizar mais do que uma oferta tão espontânea,tão...
- Sou eu que me sensibilizo por V. Exa. aceitar. E agora não falemos mais nesse meu pobrepréstimo e nesses meus pobres votos... Pois V. Ex. tem aqui uma venerável vivenda.
E como o Visconde aludia ao desejo, já nele antigo, de admirar de perto a famosa torre, mais velha que Portugal - ambos desceram ao pomar. O Visconde, com o guarda-sol ao ombro, pasmou em silêncio para a torre: reconheceu (apesar de liberal) o prestigio que resulta duma tão alta linhagem como a dos Ramires; e gabou sinceramente o laranjal. Depois, sabendo que o Pereira da Riosa arrendara a quinta, invejou ao Sr. Ramires tão cuidadoso e honrado rendeiro... - Diante do portão, o char-à-bancs do Visconde esperava, atrelado de duas mulas lustrosas e nédias. Gonçalo admirou as mulas. E, abrindo a portinhola, suplicou ao Sr. Visconde que beijasse por ele a mãozinha da Sra D. Rosa. Comovido, o Visconde confessou uma ousadia, uma esperança - e era que S. Exa. um dia, à sua escolha, parasse em Canta-Pedra, jantasse na quinta, para conhecer mais intimamente a menina da péla e do cravo...
- Mas com imensa honra!.. E desde já me proponho a ensinar à Sra. D. Rosa. se ela o não sabe, o jogo da péla à antiga portuguesa.
O Sr. Visconde saudou, banhado de gosto e riso, com a mão sobre o coração.
Gonçalo, trepando as escadas, murmurava: - "Oh senhores, que simpático homem! E que generoso homem, que paga rosas com votos! Ora vejam como as vezes, por uma pequenina atenção, se ganha um amigo! Com certeza, para a semana vou a Canta-Pedra jantar"... Homem encantador!'
E foi num ditoso estado de alma que acomodou na caleche a pasta de marroquim com o manuscrito, o cesto sentimental dos pêssegos da D. Ana - e acendeu um charuto, e saltou á almofada, e tomou as rédeas para lançar, num trote alegre até Oliveira, a parelha branca do Russo.
No largo de El-Rei, antes de apear, perguntou logo ao Joaquim da Porta notícias dos senhores. Os senhores todos muito bem, graças a Deus... O Sr. José Barrolo partira de manhã a cavalo para a quinta do Sr Barão das Marges, só recolhia á noite...
- E o Sr Padre Soeiro?
- O Sr. Padre Soeiro, creio que está para casa da Sra. D. Arminda...
- E a Sra. D. Graça?
- A Sra. D. Graça desceu há um bocadinho grande para o Mirante, de chapéu... Naturalmente iaà Igreja das Mônicas.
- Bem. Leva esse cesto de pêssegos e dize ao Joaquim da Copa que os ponha na mesa, assimmesmo no cesto, com as folhas... E que me subam ao quarto água quente.
O relógio da parede, na sala de espera, gemia preguiçosamente as cinco horas. O palacete repousava num claro silêncio. E, depois da poeira e dos solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gonçalo a frescura do seu quarto com as quatro janelas abertas sobre o jardim regado e sobre a cerca das Mônicas. Cuidadosamente, guardou logo numa gaveta da cômoda a pasta preciosa de marroquim. Uma criada de olhos repolhudos entrara com o jarrão d'água quente: - e o Fidalgo, como sempre, chasqueou a moça sobre os lindos sargentos de Cavalaria, cujo quartel tentador dominava o lavadouro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensaboando todo o dia com paixão. Depois ainda se demorou, mudando o fato empoeirado, assobiando vagamente, encostado à varanda sobre a calada rua das Tecedeiras. O sino das Mônicas lançou um lindo repique... E Gonçalo, enfastiado da sua solidão, decidiu descer pelo terraço do jardim, e surpreender Gracinha nas suas devoções, na Igrejinha.
Embaixo, no corredor, cruzou o Joaquim da Copa:
- Então o Sr. Barrolo hoje não janta?
- O Sr. Barrolo foi jantar com o Sr. Barão das Marges, na quinta... São os anos da menina.Naturalmente só recolhe à noite.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.