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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Como preocupação fútil? Não acho. Eu é porque não tenho dinheiro; mas logo que arranje um cobrinho, compro quatorze palmos de terra em S. João Batista e mando edificar o meu mausoléu, tão certo como estarmos nesta lancha ronceira.

— Para que quatorze palmos?

— Porque eu conto com a família que há de querer morar comigo, mesmo algum amigo, terá casa às ordens.

— Pois eu preferia descer ao fundo do mar.

— Pois meu caro, se para lá fores não contes comigo para acompanhar-te o enterro. Ó patrão, esta lancha não anda. Parece que não saímos do mesmo lugar.

O paquete passava enorme, sereno. À proa uma multidão apinhava-se — homens, mulheres, crianças alongando olhares para a terra desconhecida. O Neiva pôs-se de pé e, com o chapéu na mão, bradou:

— Salve, Ceará! E logo, visivelmente comovido, pôs-se a falar como se pudesse ser ouvido: Cearenses, está aqui o Neiva, vosso irmão, vosso patrício que vos veio esperar. O Neiva! E o paquete seguia para a bóia. A lancha partiu então, a toda a força, acompanhando-o e o Neiva, sempre de pé, bradava: Cearenses, aqui estou eu! Aqui estou eu!

— Vem cheio que nem um ovo, disse um dos homens da lancha.

— Gente feia! — exclamou outro.

— Feia, mas honrada, protestou o Neiva.

— Parece chim.

— Que chim?!

— É sim, seu Neiva.

— E eu? Eu tenho alguma coisa de chim?

— Vosmicê não.

— Pois eu sou cearense.

— Mas vosmicê não é arretirante, lá dos cafundós.

— Quais cafundós! Um homem daqueles vale por dez de vocês!

— Que esperança! Farinha seca não engorda. Aquilo é gente!? Barriga só.

— Pois sim. Vão lá vocês meter-se com um daqueles caboclos.

— Ora, seu Neiva! Era num tempo só... Tudo aquilo junto não dá para a brincadeira de cinco de nós.

A âncora mergulhava e a lancha avançou, manobrando atracar à escada de bombordo.

Subiram. O paquete estava literalmente tomado pelos retirantes. Era uma população que ali vinha apertada, constrangida, chorando o mesmo infortúnio. A proa úmida tresandava, redes cruzavam-se: umas estiradas, nas quais mulheres cadavéricas, macilentas, tostadas pelas grandes soalheiras dos campos largos, em mangas de camisa, com as aduelas dos peitos apontando, fumavam nostalgicamente, de olhos ao longe, perdidos num sonho. Velhos abaçanados, escaveirados, cabelos hirsutos, chapéu de coco à cabeça, a camisa de madapolão desabotoada, deixando ver os bentinhos e os amuletos pendurados do pescoço, com as mãos cruzadas nos joelhos, não se moviam como se não houvessem chegado ao termo da viagem. Rapagões sacudidos, faca à cinta, na bainha de couro, falavam em ritmo dolente de canto, num tom interrogativo. Mocinhas púberes, de olhos lindos, tez macia e rosada, cabelos de um negro de azeviche, mal levantavam as pálpebras timidamente, acotovelando-se. Crianças nuas, ventrudas como gnomos, rebolavam-se no chão; pequenitos de mama dormiam em esteiras, ao sol, nus, as mãozinhas na boca.

A um canto, sobre um rolo de cabos, um velho cego cantarolava e uma robusta rapariga cor de azeitona, de lábios grossos e sensuais, muito dengosa, fazia crivo com a almofada ao colo.

Havia um rumor indistinto: eram risadas, cantilenas, suspiros, gritos, choros, pragas. Uma viola gemia escondida. Mas dominava o grande zumbido da colméia a grasnada ruidosa dos papagaios que os retirantes traziam como lembrança da terra.

O Neiva ia de um a outro grupo, falava, interrogava, querendo saber de onde eram, se haviam sofrido muito, se a seca ainda era grande e os infelizes, como se logo, à primeira vista, houvessem nele reconhecido um patrício, uma vítima, talvez, do mesmo flagelo, cercavam-no com simpatia e confiança. Os que estavam longe avizinhavam-se de chapéu na mão, respeitosamente, narrando as suas desgraças. O Neiva afagava as crianças, animava os moços e as raparigas:

— Vocês aqui estão muito bem: a terra é boa, a gente é boa, ganha-se muito dinheiro. Depois, é o mesmo Brasil. Vocês não são brasileiros?

Um velho, com uma longa camisa que lhe descia aos joelhos por cima das calças, acenou com o dedo negativamente:

— Nhôr não.

— Como! Então você não é brasileiro, velho?

— Cearense té morrê! — disse atirando uma cusparada por entre os dentes.

— Então o Ceará não é uma província do Brasil, velho?

— Iche! Ceará é dele só... té morrê. E foi-se resmungando convencidamente. Té morrê.

O Neiva rompeu a rir e perguntou:

— Até morrer, heim?

— E o velho, de longe, sacudiu a cabeça, repetiu: — Té morrê!

Uma mocinha mais desembaraçada interrogou o boêmio:

— Mecê é nortista?

— Cearense! Cearense da gema.

— Logo vi! Só gente do norte é que fala ansim.

O velho, como se houvesse sido interrogado, resmungou novo: Té morrê!

— Lá está ele.

Um caboclo pôs-se a assobiar uma cantilena de vaqueiro. Com que melancolia o infeliz ia rememorando o tempo feliz na terra natal: a cavalo campina fora, a vara de ferrão em punho, tocando os marroás atrevidos.

(continua...)

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