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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Enfim os dançantes, já esbaforidos e estafados dos pulos e sapateados daquela dança doidejante, assentaram de tomar algum descanso. Calaram-se as violas e os adufos, e os convivas se dispersaram pelas diversas acomodações da casa a tomar licores e refrescos a fim de se habilitarem para nova refrega.

Reinaldo respirou. Enrolou o seu cigarro, acendeu-o, e dirigindo-se para a Maroca, que pela força do costume viera se assentar ao pé dele, disse-lhe com ar sombrio:

— Maroca, vamo-nos embora; este folguedo não está com jeito de acabar bem; já é tarde, e antes que aconteça alguma desgraça, vamos para casa.

— Pois já? tão cedo!... seria melhor então que não tivéssemos vindo cá, respondeu a menina mostrando-se contrariada e sem procurar disfarçar o seu descontentamento. Mestre Mateus há de se enfadar se sairmos já; ainda é muito cedo; logo mais iremos.

— Hum!... rugiu Reinaldo do fundo do peito. Estou hoje te desconhecendo, minha amiga; quem virou-te assim essa cabecinha?... seria esse...

— Ora deixe-se de tolices, volve ela interrompendo-o com azedume; isso não tem propósito nenhum. Se você não gosta destes divertimentos, devia deixarse ficar em casa, que eu por mim bem podia vir sozinha.

Levanta-se dando um muxoxo, volta-lhe as costas e vai-se retirando com certo ar de desdém. Estas palavras e este gesto doeram no coração do pobre rapaz, como se um ferro agudo o tivesse atravessado. Brandiu convulsivamente a faca, que ainda tinha na mão, e ia cravá-la... na pérfida ou em si mesmo! vacilou, conteve-se, escondeu sua amargura no fundo da alma, e tomando brandamente a Maroca pelo braço, chamou-a a si com carinho.

— Minha querida, lhe diz com voz meiga e suplicante, não sei que mal te fiz eu para assim me tratares tão desabridamente, e me despedaçares o coração com tanta crueldade. Acaso não me queres mais?... se assim é, se és tão leviana e bandoleira, que foi bastante uma só noite, um só momento para riscar do teu coração o meu nome e o meu amor, eu te peço por piedade, fala, não me encubras nada. Antes assim, do que viver iludido. Quero ouvir da tua própria boca a sentença de minha condenação. Será este o último favor que te peço, e te deixarei livre para ir bem longe de teus olhos morrer de mágoa e desesperação.

No olhar e na voz do mancebo pintava-se uma dor tão sincera e tão profunda, que Maroca, apesar de ter um coração leviano e pouco sensível, não deixou de enternecer-se.

— Não te enfades comigo, meu Reinaldo, replicou com meiguice; perdoame, se te agravei: eu sou uma estouvada, e já nem sei o que te disse. Realmente eu estava com vontade de ficar por mais algum tempo; mas se isso te incomoda, não ficarei mais nem um momento, e estou pronta desde já para acompanhar-te.

— Não, meu amor, não quero estorvar-te em teus divertimentos, diz Reinaldo já mais tranqüilizado; dança e folga, quanto for do teu agrado. Mas por piedade, Maroca, mais reserva para com esse rapaz , que se diz meu amigo, e que tanto te persegue com suas estouvadas galantarias: ele parece que nos quer perder a todos três.

— Não te dê isso cuidado, disse ela; e dando um saltinho deu um beijo e uma bofetadinha na face de Reinaldo, e leve como uma pena desapareceu pelo interior da casa cantarolando e tocando castanhola nos dedos.

Esta cena não escapou ao matreiro Gonçalo, que estava na outra extremidade da sala rodeado de comparsas, estendido em um banco a todo o comprimento, tomando da assada, e vomitando chalaças e palavradas de arrepiar os cabelos. Os ouvintes o aplaudiam vivamente e com as mais gostosas e retumbantes gargalhadas.

— Bravo! o bicho está ferido, disse lá consigo Gonçalo vendo o ar sombrio e misterioso de Reinaldo, que se sentara pensativo no tamborete abandonado por Maroca, e levantando-se foi acender o cigarro na candeia que estava junto ao seu amigo.

— Que diabo tens tu hoje, meu Reinaldinho, disse ele depois de ter acendido o cigarro, que estás de cara tão fechada e trombudo como uma anta? Quem te ofendeu, amigo? Fala, que quero já desagravar-te.

— Gonçalo, nem sempre a gente está para brincadeiras. Se és deveras meu amigo, não estejas a provocar-me com esses gracejos de mau gosto; olha que há certas coisas, certos sentimentos, com que não se pode brincar sem perigo.

— Perigo! algum dia me viste recuar diante de perigo algum, meu criançola? diz antes que já te pesa a cabeça antes de tempo, e por isso andas assim focinhudo e cabisbaixo.

— Gonçalo, tu estás de propósito a querer queimar-me o sangue!... se continuas, estão rotos os laços de nossa amizade desde este momento, e...

— E o quê?... cala-te, meu tolo; não te amofines por tão pouca coisa. Aquela menina, por quem morres, se eu o quiser, posso levá-la hoje mesmo na minha garupa para onde me aprouver.

— Disso não és tu capaz, Gonçalo; eu juro por minha alma; antes que lhe ponhas a mão, cairás morto a meus pés, ou deverás passar por cima de meu cadáver.

(continua...)

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