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#Sátiras#Literatura Brasileira

O Elixir do Pajé

Por Bernardo Guimarães (1875)

Publicado em 1875, O elixir do pajé, de Bernardo Guimarães, é um poema satírico que critica costumes, hipocrisias e falsas virtudes da sociedade do século XIX. Com humor e ironia, a obra narra a história de um suposto elixir milagroso criado por um pajé, usando a fantasia para expor exageros morais e comportamentos ridículos, em tom irreverente e provocador.

Que tens, caralho, que pesar te oprime

que assim te vejo murcho e cabisbaixo

sumido entre essa basta pentelheira,

mole, caindo pela perna abaixo?

Nessa postura merencória e triste

para trás tanto vergas o focinho,

que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,

teu sórdido vizinho!

Que é feito desses tempos gloriosos

em que erguias as guelras inflamadas,

na barriga me dando de contínuo

tremendas cabeçadas?

Qual hidra furiosa, o colo alçando,

co'a sanguinosa crista açoita os mares,

e sustos derramando

por terras e por mares,

aqui e além atira mortais botes,

dando co'a cauda horríveis piparotes,

assim tu, ó caralho,

erguendo o teu vermelho cabeçalho,

faminto e arquejante,

dando em vão rabanadas pelo espaço,

pedias um cabaço!

Um cabaço! Que era este o único esforço,

única empresa digna de teus brios;

porque surradas conas e punhetas

são ilusões, são petas,

só dignas de caralhos doentios.

Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?

Quem sepultou-te nesse vil marasmo?

Acaso pra teu tormento,

indefluxou-te algum esquentamento?

Ou em pívias estéreis te cansaste,

ficando reduzido a inútil traste?

Porventura do tempo a destra irada

quebrou-te as forças, envergou-te o colo,

e assim deixou-te pálido e pendente,

olhando para o solo,

bem como inútil lâmpada apagada

entre duas colunas pendurada?

Caralho sem tensão é fruta chocha,

sem gosto nem cherume,

lingüiça com bolor, banana podre,

é lampião sem lume

teta que não dá leite,

balão sem gás, candeia sem azeite.

Porém não é tempo ainda

de esmorecer,

pois que teu mal ainda pode

alívio ter.

Sus, ó caralho meu, não desanimes,

que ainda novos combates e vitórias

e mil brilhantes glórias

a ti reserva o fornicante Marte,

que tudo vencer pode co'engenho e arte.

Eis um santo elixir miraculoso

que vem de longes terras,

transpondo montes, serras,

e a mim chegou por modo misterioso.

Um pajé sem tesão, um nigromante

das matas de Goiás,

sentindo-se incapaz

de bem cumprir a lei do matrimônio,

foi ter com o demônio,

a lhe pedir conselho

para dar-lhe vigor ao aparelho,

que já de encarquilhado,

de velho e de cansado,

quase se lhe sumia entre o pentelho.

À meia-noite, à luz da lua nova,

co'os manitós falando em uma cova,

compôs esta triaga

de plantas cabalísticas colhidas,

por sua próprias mãos às escondidas.

Esse velho pajé de pica mole,

com uma gota desse feitiço,

sentiu de novo renascer os brios

de seu velho chouriço!

E ao som das inúbias,

ao som do boré,

na taba ou na brenha,

deitado ou de pé,

no macho ou na fêmea

de noite ou de dia,

fodendo se via

o velho pajé!

Se acaso ecoando

na mata sombria,

medonho se ouvia

o som do boré

dizendo: "Guerreiros,

ó vinde ligeiros,

que à guerra vos chama

feroz aimoré",

— assim respondia

o velho pajé,

brandindo o caralho,

batendo co'o pé:

— Mas neste trabalho,

dizei, minha gente,

quem é mais valente,

mais forte quem é?

Quem vibra o marzapo

com mais valentia?

Quem conas enfia

com tanta destreza?

Quem fura cabaços

com mais gentileza?"

E ao som das inúbias,

ao som do boré,

na taba ou na brenha,

deitado ou de pé,

no macho ou na fêmea,

fodia o pajé.

Se a inúbia soando

por vales e outeiros,

à deusa sagrada

chamava os guerreiros,

de noite ou de dia,

ninguém jamais via

o velho pajé,

que sempre fodia

na taba na brenha,

no macho ou na fêmea,

deitando ou de pé,

e o duro marzapo,

que sempre fodia,

qual rijo tacape

a nada cedia!

Vassoura terrível

dos cus indianos,

por anos e anos,

fodendo passou,

levando de rojo

donzelas e putas,

no seio das grutas

fodendo acabou!

E com sua morte

milhares de gretas

fazendo punhetas

saudosas deixou...

Feliz caralho meu, exulta, exulta!

Tu que aos conos fizeste guerra viva,

e nas guerras de amor criaste calos,

eleva a fronte altiva;

(continua...)

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