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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

CASIMIRO (A Porfírio) – Evidentemente o Mário está muito desmoralizado!... começo a suspeitar que até me espia! (Desaparece a Acrobata)

MÁRIO (A Porfírio) – Meu pai está perdido: é de uma inconveniência que me vexa. (Indo-se)

POLIDORO – Já tinha idade para limitar-se ao lasquenet. (Vão-se os dois)

CENA VIII

CASIMIRO e PORFÍRIO

CASIMIRO – O tratante vai sem dúvida encontrar-se com a Acrobata; não posso, não devo seguí-la: seria indecoroso. Mas donde tira ele dinheiro, chave de ouro para abrir a porta do inferno daquele demônio?

PORFÍRIO – Ah! Casimiro! estas mulheres são perversas: na gíria dessas harpias os mocetões da nossa idade têm um nome horrível, um nome com cheiro de armazém de secos e molhados.

CASIMIRO – Que nome?

PORFÍRIO – Paios, a explicação tu sabes.

CASIMIRO – Mas a Acrobata é uma perdição... e demais está na moda...

confesso-me doído por ela. Aquilo é uma centopéia de encantos!

PORFÍRIO – E a linda Irene?

CASIMIRO – Amor de outro gênero... loucura de outra espécie...

PORFÍRIO – E ela... vai-se abrandando... pendendo... caindo?

CASIMIRO – Exagera o recato: creio que é porque ainda não lhe falei em casamento.

PORFÍRIO – E que demora é essa tua?

CASIMIRO – Sabes que sou o modelo dos pais: hesito em dar madrasta a meus

filhos.

PORFÍRIO – Quem diz que te cases? prometer não é cumprir. Irene, rapariga pobre, depois de seduzida julgar-se-ia feliz, tendo casa e tratamento sob a proteção e os cuidados do teu amor. Eu, apesar de casado, não tive dúvida em arranjar uma dessas distrações.

CASIMIRO – E a comadre?

PORFÍRIO – Consola-se com os filhos e nada lhe falta; aos cinqüenta e dois anos perdeu o direito de opor embargos: é guarda nacional da reserva.

CASIMIRO – Ah! Porfírio! se ela te ouvisse...

PORFÍRIO – Rufa em casa, como um tambor; por isso ando sempre por fora; tu estás em melhores condições, és viúvo; faze o que te disse, Irene é uma economia, porque te fará esquecer a Acrobata.

CASIMIRO (Suspirando) – Ah! seu eu fosse rico...

PORFÍRIO – Que farias?

CASIMIRO – Tomava ambas; eu adoro o belo sexo... é o meu fraco; todavia...

pensarei no teu conselho... mas...

PORFÍRIO – Que é?

CASIMIRO – E o sr. Mário eclipsou-se!

PORFÍRIO – Naturalmente: ele o sol, a Acrobata a lua, tu ficas sendo terra; deuse o eclipse.

CASIMIRO – O que me espanta é a desmoralização da mocidade!

PORFÍRIO – Tens razão; porque os velhos, como nós, dão aos moços o exemplo da mais austera virtude; ora viva lá! sejamos francos: são os pais que deitam a perder os filhos, tem paciência, e vamos ver as moças. (Vão-se)

CENA IX

VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, AUGUSTO e LEOPOLDO

CLEMÊNCIA – Como são belos os cisnes! que colos majestosos!

LEOPOLDO – Há quem tenha mais admirável pescoço.

CLEMÊNCIA – Pode-se saber quem é?

LEOPOLDO – É segredo meu; mas todos os dias por mais de uma vez lho revelam.

CLEMÊNCIA – Já adivinhei; mas desconfio do revelador.

LEOPOLDO – Por que?

CLEMÊNCIA – O meu espelho deixou-se corromper pela lisonja. (Conversam) BRAZ (A Violante) – O doutor já está harpoado: não perca tempo.

VIOLANTE (A Braz) – Por fim de contas vou entrar no fogo. (Alto) Clemência fica discorrendo sobre os colos dos cisnes, enquanto continuo a apreciar as reformas do Fialho.

BRAZ – Eis o meu braço madrinha.

VIOLANTE – Você nada me explica; apenas sabe maldizer do próximo: se o sr. doutor quisesse sacrificar dez minutos à minha companhia...

AUGUSTO – Oh, minha senhora! vossa excelência me transporta com esta distinção.

CENA X

BRAZ, CLEMÊNCIA e LEOPOLDO

BRAZ – A madrinha cometeu dois estelionatos; um contra mim, roubando-me o seu braço, outro contra dª. Clemência, roubando-lhe o dr. Augusto.

CLEMÊNCIA – Está vendo que não posso queixar-me; minha tia somente me poupou a um embaraço de cortesia; o sr. Leopoldo vai ter a bondade de mostrar-me o viveiro de plantas de mr. Graziaux.

LEOPOLDO – Abençoada seja a minha fortuna! ( Vão-se os dois)

BRAZ – Também eu abençôo a minha fortuna, que me traz dali o meu amigo Polidoro.

CENA XI

BRAZ e POLIDORO

POLIDORO – “Ela vai-se! e com ela vai minha alma!” amigo... (Saúda) que contraste!

BRAZ – Entre ela que vai-se e eu que fiquei?

POLIDORO – Não; eu me explico: tenho na vida duas paixões, a do amor platônico e a do lasquenet; no lasquenet, quando paro mais forte, é sempre nas damas; no passeio, no baile, cortejo por devoção a todas as senhoras.

BRAZ – Mas dª. Clemência...

POLIDORO – A essa amo, adoro; porém não me interrompa; nunca pensei que houvesse dama que me fizesse recuar de medo, e hoje... aqui mesmo... ind’á pouco...

(continua...)

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