Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Ingrato, em recompensa do amor que te consagro, não me dás senão desgostos!... desvelo-me em te adorar, e tu me pagas com rigores... ai! sou pobre flor sem jardineiro, que fenece na espessura!
Venâncio, que sempre continuava a passear ao longo da sala, seguido por Tomásia, ouvindo aquela modesta comparação, voltou-se para ver a pobre flor sem jardineiro, que fenecia na espessura e achou diante dos olhos a cara de sua mulher feia, e desbotada; então, para se não expor a perder a posição que ocupava, teve de comprimir uma risada, e, continuando o seu passeio, respondeu:
— Não pega a lábia, minha senhora.
— Oh, ingratidão! oh, crueldade! e ele disse que queria a paz!... pobre de mim que sou a vítima!...
E Tomásia desatou a chorar horrivelmente.
Venâncio, cheio de si, perdido nas alturas de seus triunfos, não parou no seu passeio, antes o continuou, dizendo:
— Não é possível! não pode ser!
Tomásia não pôde conter-se por mais tempo: vendo esgotados até as lágrimas todos os meios brandos com que contava, fez com toda a habilidade própria das senhoras desaparecer o pranto num momento, e, levantando a cabeça, disse:
— Ai! pior está essa!... Venâncio, olha que já me vai subindo o sangue à cabeça! cuidado comigo.
Venâncio sentiu-se abalado; mas, não querendo mostrar-se desanimado, elevou a voz mais que nunca e gritou:
— Requeira em termos!...
— Venâncio!... bradou Tomásia com essa voz estrepitosa, com que costumava enterrar o marido três braças pela terra dentro.
Venâncio não se meteu três braças pela terra dentro; mas caiu completamente da sua elevada nuvem de superioridade; aquele brado de Venâncio soou na sua alma terrivelmente, e despertou a consciência do seu nada... foi ainda ensaiando um derradeiro esforço, que ele exclamou com voz de falsete:
— Tenho deferido.
Tomásia já não estava boa, agarrou nas abas da niza que seu marido vestia e, obrigando-o a voltar o rosto
para ela, gritou-lhe na cara:
— Ouviste?... quero que se dê um sarau! quero! compreendes-me bem?...
E dizendo isto cruzou, como fizera Venâncio, as mãos atrás das costas, e se pôs a passear por sua vez; e o marido, que estava completamente por terra, foi quem teve então de acompanhála, dizendo-lhe com toda a humildade:
— Vem cá, mulher impaciente; não sabes que eu sou um empregado sem exercício, que o meu ordenado e todos os nossos rendimentos não chegam a dois contos de réis, e que por conseqüência não tenho dinheiro para dar saraus?... — Pois tivesse: há de haver sarau.
— Não sabes que, sem necessidade e só por tua vontade, aluguei uma quinta, de cujo aluguel já devo seis meses...
— Pois não a alugasse: há de haver sarau.
— Ignoras que, para comprar tetéias francesas e vestidos para ti e tua filha, fiquei no fim deste ano empenhado em um conto de réis?... — Pois não ficasse: há de haver sarau.
— Ignoras que hoje mesmo se venceu a letra de oitocentos mil-réis, que por teu respeito assinei, e que, portanto, quem não tem, como eu, dinheiro para pagar o que deve, também não tem dinheiro para funções inúteis?...
— Pois tivesse: há de haver sarau.
— Então estas razões não valem nada?...
— Não quero saber delas.
— Devo eu querer saber. E, portanto, o dia do batizado passará como outro qualquer, só com a única diferença de bebermos mais um copo...
Tomásia não pôde mais conter o seu furor; voltou-se de repente, e esbarrou-se cara a cara com Venâncio.
— Um copo de um dardo que te atravesse!... bradou ela batendo com o pé.
— Oh, senhora! exclamou Venâncio pondo a mão no nariz a ver se corria sangue, oh, senhora! veja lá como me trata! olhe que ia escapando de esborrachar-me o nariz.
Com aquele desgraçado encontro, Venâncio, que amava o seu nariz sobre todas as coisas, tornou-se exasperado.
— Quero o sarau! bradou Tomásia.
— Não pode ser! um milhão de razões... enfim, não há dinheiro! — Pois cubra o déficit com um crédito suplementar!...
— Vou fazer bancarrota... já não tenho crédito na praça.
— Há de haver sarau por força! gritou Tomásia com toda a força de seus pulmões.
— Não há de!... não quero!...
— Quero eu!... há de!...
— Não há de!... bradou Venâncio, que, ainda furioso, se lembrava da narigada.
— Veremos... vou fazer os convites...
— E eu saio logo a desavisar os convidados...
— Oh, brejeiro!... há de haver sarau!...
— Não há de!... digo-lho eu!...
— Patife!... maroto!...
— Patife!... maroto a mim!... que tenho saído juiz de paz em todas as eleições?... É muito... isso não se pode sofrer!...
— Eu te ensinarei!... lambazão insolente!...
— É ela!... tartaruga!... velha!... feia!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.