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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Certamente o cirurgião Aleixo Manoel já tinha morrido sem deixar filhos ricos, e a linda mameluca Inês, se ainda vivia, era viúva maior de oitenta anos, e por isso desde muito esquecida do amigo vento, que outrora oportunamente lhe desarranjava a mantilha e lhe levantava o véu, e portanto um por morto sem herdeiros de seu nome com herança de áureo prestígio e a suposta viúva já por velha, ex-adorada mameluca, foram despojados da glória daquela denominação da rua.

Quem foi porém na ordem das coisas, e qual o merecimento do Padre Homem da Costa positivamente morador à rua que tomou o seu nome?... Não sei.

Naqueles tempos encontro um Padre Pedro Homem Albernaz que foi Vigário da freguesia da Candelária, e Prelado do Rio de Janeiro; mas, embora fosse Homem, não foi da Costa; além disso, descobri um Padre Pedro Homem da Costa que depois de paroquiar por alguns anos a freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Angra dos Reis entregou-a em 1636 ao Padre Roque Lopes de Queirós, e recolheu-se à cidade do Rio de Janeiro.

Seria esse o padre cujo nome passou à rua que se chamava de Aleixo Manoel?... ignoro-o, e não devo expor-me a falsos juízos.

Sei de uma tradição - que não se encontra nos meus velhos manuscritos, mas que me foi transmitida por um antigo fluminense honradíssimo, carpinteiro e mestre-de-obras, a quem devi curiosíssimas informações de coisas do fim do século passado e do princípio do atual; esta tradição, porém, que é a do Padre Homem da Costa, só a esse meu amigo ouvi, e portanto é apenas individual, e não popular, e, tratando-se de caso passado há duzentos anos, não a posso reproduzir sem previamente declará-la muito duvidosa.

Quando imagino episódios para suavizar a leitura destas Memórias, indico-os sempre com bastante clareza: Agora não imagino, não invento a tradição, mas refiro-a, porque se não é verdadeira é bem achada.

O Padre Homem da Costa (que só esses dois nomes tinha) era padre de letras gordas, mas passava por bom cantoconista, porque sabia um pouco de música: indulgente, agradável e de benigno coração, era geralmente estimado, e como gostasse de cantar modinhas e lundus, todos o queriam nos seus saraus; tinha ele porém uma fraqueza ou uma paixão predominante a da gastronomia.

Padre e já velho, mas ainda rei da viola ou do cravo acompanhadores de suas cantigas nas sociedades, as senhoras o festejavam à porfia; e por fim de contas as moças solteiras e desejosas de casar descobriram nele a mais preciosa qualidade, um talento sublime.

O Padre Homem da Costa era maravilhoso a facilitar e promover casamentos.

Qual foi a primeira ardilosa que fez a descoberta de tão rico tesouro não se sabe e isso pouco importa: o certo é que conhecido o milagre do padre as moças o tomaram em devoção.

Mas a candidata a casamento e o padre firmavam a rir e brincar, contrato que aliás era cumprido sem falha.

A candidata abria seu coração ao Padre Homem da Costa, dizia-lhe o nome do seu namorado, e, expondo-lhe as dificuldades que se opunham ao seu casamento, pedia intervenção protetora.

O Padre Homem da Costa respondia rindo e como a gracejar:

- Bem, bem: mas eu quero uma garopa de forno no dia do ajuste do noivado e convite para o banquete do casamento.

Não havia nada mais barato!

E o padre a entender-se com os pais do namorado e depois com os pais da candidata era tão persuasivo e hábil que acabava sempre por ganhar a garopa de forno, e ir ao banquete do casamento.

E era sempre feliz nos empenhos tomados; porque, quando a pretensão lhe parecia inconveniente ou desajuizada, não hesitava em desenganar a candidata.

É claríssimo que se multiplicavam as candidatas a casamento e os contratos de aparência zombeteira e de realidade gastrônoma.

As confidências e as expansões das candidatas eram pouco mais ou menos semelhantes, edições mais ou menos corretas e emendadas do mesmo romance de amor.

Nos contratos gastrônomos havia alguma variedade, mas sem importância para as candidatas: em vez de garopa de forno, vinha neste peru recheado -; naquele um prato de chouriço, etc.; mas em regra predominavam em primeiro lugar a garopa de forno e em segundo o peru recheado.

Em pouco tempo o Padre Homem da Costa promoveu e abençoou ou fez abençoar mais casamentos do que o prelado do Rio de Janeiro, e os vigários das freguesias da cidade.

E as noivas e casadas agradecidas e as novas candidatas em devoção, querendo honrar o milagroso casamenteiro, começaram a chamar a rua onde ele morava, que era a de Aleixo Manoel, Rua do Padre Homem da Costa.

Não houve nem Câmara Municipal, nem clero, nobreza e povo que pudessem resistir àquela proclamação do belo sexo.

A Rua de Aleixo Manoel passou a denominar-se - Rua do Padre Homem da Costa.

E o velho padre continuou a adotar e proteger candidatas a casamentos, até que no fim de alguns anos, em uma noite, morreu de apoplexia fulminante, depois de uma ceia em que devorara metade de uma garopa de forno, uma fritura de camarões e ostras, e um pratarraz de chouriço.

(continua...)

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