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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Luxo e Vaidade apresenta uma crítica aos excessos da sociedade urbana do século XIX, explorando a busca pelo prestígio social, pelas aparências e pelo status. A narrativa revela como o desejo de ascensão e ostentação influencia comportamentos e relações pessoais, expondo conflitos morais e afetivos. Com tom irônico, a obra questiona valores sociais e a superficialidade das convenções da época.

Comédia Original em Cinco Atos

Representada pela primeira vez, a 23 de Setembro de 1860, no Teatro Ginásio, pela Companhia Dramática Nacional.



Personagens:

Maurício — empregado público.

Anastácio — fazendeiro.

Felisberto — marceneiro.

Henrique — pintor.

Reinaldo — coronel.

O Comendador Pereira

Frederico

Petit — criado francês.

Primeiro Máscara.

Segundo Máscara.

Hortênsia — mulher de Maurício.

Leonina — filha de Hortênsia.

Fabiana

Filipa — filha de Fabiana.

Lúcia — Filha de Reinaldo.

Fanny — inglesa; mestra de Leonina. Máscaras de ambos os sexos.



A ação é passada na cidade do Rio de Janeiro.

Época: a atualidade.



ATO PRIMEIRO

Sala, ornada com esmero e luxo; portas, ao fundo e aos lados, dando comunicação para o exterior e para o interior da casa.



CENA I

Petit (Suspirando) — Miss Fanny!

Fanny (Estremecendo) — Ah!…monsieur Petit! Ficar muite sustade...este non se use n’Ingliterre.

Petit — Oh! non tem que assusta; eu venha aproveitar momento deliciose de conversa sozinha com miss Fanny em uma tête-à-tête impreciável.

Fanny — Mim ficar muite envorganhade com este conversacion.

Petit — Oh! miss Fanny, non tem vergonha!vergonha non presta por nada: gente que tem vergonha, non sabe arranja sua vida. (Olhando para dentro) Onde está as senhoras?

Fanny — Poder estar segura: madame fique sentada de fronte de toucador, e pinta suas cabelinhas brancas; e mademoiselle estar no janela de sala grande olhando repagão barbude do sobrado de esquina.

Petit — E senhor Maurício estar em sue gabinete lendo contas de despesa e roendo as unhas: então nosso tête-à-tête se prolongue dues hores; porque madame tem muito que pinta, mademoiselle muito que olhe, e senhor Maurício muito que róe.

Fanny — Oh! mas este non se use n’Ingliterre; done deste case ganhe cinco e gaste cincoenta; este família ser gente de imposture: contracta mim para ensina inglês mademoiselle, e non paga minhas ordenados cinco meses! Mim há de faz queixa a ministro inglês.

Petit — Esta gente non ande direita. Senhor Maurício tem bola virada, e madame non tem bola para virar; non pode gastar e faz ostentação, e tem em casa professora de inglês para mademoiselle, e criado francês para servir na sala; mas também quatro meses que eu non recebe meus salários, e se miss Fanny non mora nesta casa, eu bota logo pés na rua.

Fanny — De mèsme sorte mim non poder ficar separade de monsieur Petit.

Petit — Oh! este confissão me torne verdadeiramente um grande Petit! Miss Fanny, vamos deixar esta casa, vem dar coroa de felicidade ao meu amor.

Fanny — Oh! Este non se use n’Ingliterre; mim non poder dar corôa de felicidade, sem ver padre católica bota mão de Petit em cima de mão de Fanny.

Petit — Eu non ponha dúvida em fazer aliança anglo-francesa com miss Fanny...é maior ventura que suspira!

Fanny — Então, mim dar corôa de felicidade: confessa que estar muito desejosa...

Petit (De joelhos e beijando-lhe as mãos) — Miss Fanny! Oh! quel bonheur!



CENA II

Petit de joelhos, Fanny e Anastácio, que aparece à porta do fundo; vem trajando à viajante e traz botas grandes e esporas.

Anastácio — Oh lá...que par de galhetas! Parece uma coruja que ouve em confissão a um macaco d’Angola!...

Fanny — Ah! Ficar muite vergonhade!...este non se use n’Ingliterre.

Petit (Levantando-se) — Que diabo de mineiro! (Indo à porta) Non entra na sala com esses botas que traz lama!...

Anastácio — Não entra na sala!

Petit (Firme, diante de Anastácio) — On ne passe pás!

Anastácio (Ameaçando-o) — Arreda-te, malandro! Quando não...

Petit (Firme) — La garde meurt, elle ne se rend pás!

Anastácio (Dando-lhe um murro) — Insolente!...(Entra)

Petit (Caindo) — Au secours!...au secours!…

Fanny — Mim vai grita quem de rei, e chama dona de casa! Este non se use n’Ingliterre.



CENA III

Petit, Anastácio, e logo Leonina.

Anastácio — Entrei como Palafox em Saragoça!

Leonina — Que é isto?...Que aconteceu?

Anastácio (Á parte) — Que mocetona! É a tal cabecinha de vento, sem dúvida.

Petit — É este mineiro que arruma soco inglês, e entra à força na sala com esses botas que traz lama.

(continua...)

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