Por Machado de Assis (1876)
Pedro pediu-lhe que mudasse de assunto, ameaçando-a ele ir dizer tudo ao tio. — Não é preciso! exclamou uma voz.
Voltaram-se.
Era o padre que entrara na sala desde algum tempo e ouvia a conversa dos dois. — E não lhe parece que tenho razão? perguntou Pedro.
— Toda. Agora só se deve pensar na vida.
— Vê? disse o moço, voltando-se para Lulu.
— O Alexandre já veio? perguntou o padre Sá, depois de beijar a testa à sobrinha e abençoá-la como de costume.
Lulu ficou séria.
Aquela pergunta avivou-lhe a tristeza que lhe causava a ausência do primo, ausência de dezoito horas, o que era enorme, se atendermos ao estado da moça e às relações de suas almas. O tio notou-lhe a impressão e ficou igualmente sério.
— Nem tudo sai à medida dos nossos desejos, pensou ele; não verei realizados os meus dois sonhos! Se sai dali um peralta...
O pensamento foi interrompido pela entrada de Alexandre.
Lulu sorriu de contentamento ao ver o primo; mas reprimiu aquela expressão para de algum modo puni-lo do esquecimento em que a deixara.
O velho padre foi menos diplomata; recebeu-o com a alma nas mãos. Alexandre não reparou nem na dissimulação dela, nem na expansão dele; seus olhos foram direitos ao filho de D. Emiliana. Pedro sustentou o olhar com tranqüilidade; e se houvesse menos comoção da parte das testemunhas daquele olhar, veriam que ambos pareciam querer sondar um ao outro.
A moça esperou que o primo, em desconto de seus pecados, a tratasse com a ternura a que o seu coração tinha jus; mas Alexandre parecia preocupado; e ela entregou-se toda à conversação do outro. Uma canoa que cortava as águas tranqüilas do mar serviu de pretexto e começo à palestra. O que eles disseram da canoa, do mar, da vida marítima, e mais idéias correlativas dificilmente caberia neste capítulo, e com certeza exigia alguns comentários, visto que algumas frases tinham tanto com o assunto como o doge de Veneza. Alexandre contemplava-os sem morder o lábio com raiva, nem dar o menor sinal de despeito. Seu rosto marmóreo não revelava o que se passava no coração. Não tardou que ele próprio interviesse na conversa. O padre Sá aproveitou a ocasião para chamar o filho de D. Emiliana à explicação de um ponto teológico. Pedro afastou-se do grupo com dificuldade; mas a conversa entre os dois morreu, como lâmpada a que faltou óleo.
VII
Lulu notou a esquivança do primo e a frieza que lhe mostrava. Certo é que nunca lhe achara a expansão, nem a ternura, que era natural exigir de um namorado. Alexandre era sóbrio de palavras e seco de sentimentos. Os olhos com que a via eram sérios, sem flama, sem viveza — “, dizia-lhe ela um dia gracejando. Mas se ele fora sempre assim, agora parecia mais frio do que nunca, e a moça procurou saber a causa daquela agravação de impassibilidade.
— Ciúmes, pensou ela.
Ciúmes de Pedro, devia dizer; mas nem ela nem a leitora precisam de nada mais para completar o pensamento. De quem seriam os ciúmes senão daquele rapaz, que se mostrava assíduo, afável, dedicado, que a tratava com esmero e afeição? A moça riu da descoberta.
— Um quase padre! exclamou ela.
Daí a poucos dias, o padre Sá disse ao filho de D. Emiliana que os seus negócios iam perfeitamente e que dentro de pouco tempo devia dizer adeus a quaisquer ocupações estranhas aos preparatórios eclesiásticos.
— Faça exame de consciência, disse a moça, que estava presente à conversa dos dois; e prepare-se para...
— Para casar? perguntou sorrindo o tio.
Lulu corou ouvindo aquelas palavras. Sua idéia não era casamento; era um gracejo fúnebre e tão descabido que a frase lhe morrera nos lábios. O que ela queria dizer era que Pedro se preparasse para rezar-lhe o responso. A interrupção do tio desviou-lhe o pensamento do gracejo para dirigi-lo ao primo. Corou, como disse, e refletiu um instante. — Oh! se ele me amasse com o mesmo ardor com que este ama a Igreja! pensou ela. Depois:
— Falemos de coisas sérias, continuou ela em voz alta. Desejo vê lo em breve cantar uma missa ao lado de titio.
Na noite desse mesmo dia, Alexandre foi à casa do padre Sá. Ia preocupado e pouco se demorou. O tio notou-lhe a diferença e ficou apreensivo. Conjecturou mil coisas para aquela mudança do sobrinho, sem atinar qual delas era a verdadeira. Lulu ficou igualmente triste; não digo bem, havia tristeza, mas havia outra coisa também, havia despeito; e menos o amor do que o amor-próprio começava a sentir-se ofendido. Pedro aproveitou a primeira ocasião em que o padre saiu da sala para lhe perguntar o motivo daquela súbita melancolia.
A moça estremeceu como se acordasse sobressaltada de um sono. — Não ouvi, murmurou ela.
— Perguntava-lhe por que motivo ficou assim pensativa.
— Um capricho, respondeu a moça.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.