Por Padre Antônio Vieira (1655)
77. Que bem o entendeu assim o mesmo demônio, que para tudo nos dá armas. Terceira vez vencido o tentador, diz São Lucas que se retirou por então, não para desistir totalmente de tentar a Cristo, mas reservando a tentação para outro tempo: Et consummata omni tentatione, diabolus recessit ab illo usque ad tempus (Lc. 4,13). Contudo, nem S. Lucas, nem algum dos outros evangelistas dizem expressamente quando o diabo tornasse a tentar a Cristo. Que tempo foi logo este, e que tentação? Santa Atanásio, e comumente os Padres e expositores, resolvem que o tempo foi no último dia e hora da morte de Cristo – que é a ocasião em que o demônio faz o última esforça para tentar aos homens – e que a tentação foi por boca dos judeus, quando disseram: Si Filius Dei est, descendat nunc de cruce, et credimus ei (Mt. 27,42): Se é Filho de Deus, desça da cruz, e crereinos nele. – E verdadeiramente a frase, e modo da tentação, bem mostra ser do mesmo artífice que tinha tentado a Cristo no deserto e no Templo, onde sempre começou, dizendo: Si Filius Dei es. Vede agora a astúcia e conseqüência do demônio, em que fundou toda sua esperança. Como na última tentação, em que se retirou vencida, tinha oferecido a Cristo todos os reinos do mundo, fez este discurso: Este homem, ofereci-lhe todo o mundo, e não o pude render: necessário é logo acrescentar e reforçar a tentação, e oferecer-lhe coisa que pese e valha mais que todo o mundo. Coisa de maior preço e de maior valor que todo o mundo não há, senão a alma. Hei-o de tentar com almas. E assim o fez: Descendat de cruce, et credimus ei. De sorte que só com o oferecimento daquelas almas, que o demônio tanto possuía, lhe pareceu que podia render a quem não tinha rendida com o oferecimento de todo o mundo.
78. Esta foi a tentação que o demônio reservou para a última batalha. Mas, ainda que nesta ocasião fez o tiro a Cristo com muitas almas, já antes dela o tinha feito com uma só, não oferecendo-lha, mas querendo-lha roubar. Para o demônio roubar a Cristo a alma de Judas, persuadiu-lhe a traição. E que fez o bom pastor para tirar dos dentes deste lobo aquela ovelha? Lançou-se aos pés do mesmo Judas para lhas lavar: Cum jam diabolus misisset in cor, ut traderet eum Judas, caepit lavare pedes discipulorum.19 Senhor meu, vós aos pés de Judas, persuadido pelo demônio a vos entregar? Vós aos pés de Judas, a quem chamastes demônio: Ex vobis unus diabolus est?20 Ainda é maior e mais fundada a minha admiração. Diz expressamente S. Lucas que, antes deste ato e deste dia, já o demônio tinha entrado em Judas: Intravit Satanas in Judam, et quaerebat oportunitatem ut traderet illum. Venit autem dies azymorum, in quo oportebat occidi Pascha.21 Pois se Judas não só é demônio por maldade, mas em Judas está por realidade o mesmo demônio, como se ajoelha Cristo diante de Judas? A figura em que o demônio tentou a Cristo quando disse: Si cadens adoraveris me, era de homem, e não de demônio. Judas, em quem agora está o demônio, também é homem. Como pois se ajoelha Cristo a um homem que é demônio, e dentro do qual está o demônio? Aqui vereis quanto vale uma alma, e quanto vale mais que o mundo todo. Por todo o mundo não dobrou Cristo o joelho, nem o podia dobrar a um demônio transfigurado em homem; e por uma alma lançou-se de joelhos aos pés de um homem que era demônio, e tinha dentro de si o demônio. Por todo o mundo não conseguiu o demônio que Cristo se ajoelhasse a ele; por uma alma, se não conseguiu que se ajoelhasse a ele, conseguiu que se ajoelhasse diante dele.
79. Ah! idólatras do mundo! que tantas vezes dais a alma e dobrais o joelho ao demônio, não pelo mundo todo, senão por umas partes tão pequenas dele, que nem migalhas do mundo se podem chamar! Quantos príncipes dão a alma, e tantas almas ao demônio por uma cidade, por uma fortaleza? Quantos títulos por uma vila? Quantos nobres por uma quinta, por uma vinha, por uma casa? Que palmo de terra há no mundo que não tenha levado muitas almas ao inferno, pela demanda, pelo testemunho falso, pela escritura suposta, pela sentença injusta, pelos ódios, pelos homicídios, e por infinitas maldades? Se o mundo todo não pesa uma alma, como pesam tanto estes pedacinhos do mundo? Barro alfim. Deitai ao mar um vaso de barro inteiro: nada por cima da água; quebrai esse mesmo vaso, fazei-o em pedaços, e todos, até o mais pequeno, se vão ao fundo. Se o mundo todo inteiro pesa tão pouco, como pesam tanto estes pedaços do mundo, que todos se vão ao fundo e nos levam a alma após si? Quisera acabar aqui, e já há muito que devera, mas como estamos em um ponto de tanta importância, que é a maior e a única, e toca igualmente a todos e a cada um, dai-me licença com que acabe de desarmar ao demônio, dando-lhe muitas mais armas das que ele tem, e concedendo-lhe tudo o que hoje prometeu e tudo o que se não atreveu a prometer. Se alguma hora me destes atenção, seja neste último argumento, que desejo apertar de maneira que não haja coração tão duro, nem entendimento tão rebelde, que não dê as mãos e fique convencido.
§VI
Se o demônio nos mostrasse procurações de Deus para nos dar todos os reinos do mundo, aceitá-lo-íamos? Réplicas a esse oferecimento: a brevidade da vida, a inconstância dos reinos, e a limitação da natureza humana. Deus nos livre de pôr a salvação de nossa alma em dúvida. A túnica interior e as vestiduras exteriores de Cristo, símbolos da alma e dos bens temporais divididos ou lançados à sorte.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.