Por Padre Antônio Vieira (1673)
Mas quem era este general, quem era este soldado? Este Davi e este Jó, que homens eram? Oh! miséria e conlusão de nosso descuido e de nossa pouca fé! Davi era aquele homem que, sendo ungido por Deus, quis antes perdoar a seu maior inimigo, que pór na cabeça a coroa e empunhar o cetro (1 Rs. 24,7); era aquele que, depois de ser rei, tinha entre noite e dia sete horas de oração, trazendo debaixo da púrpura cingido o cilício, e domando ou humilhando, como ele dizia, seu corpo com perpétuo jejum (Sl. 34,13); aquele que dos despojos de suas vitórias ajuntava tesouros não para si, e para a vaidade, senão para a fábrica do Templo (2 Rs. 7); aquele que, sendo leigo, ordenou o canto eclesiástico (2 Par. 7,6), distinguiu os ministros, reformou as cerimônias, e pôs em perfeição todo o culto divino e coisas sagradas (1 Par. 23,3); aquele que, se cometeu um pecado (3 Rs. 7,51), ainda depois de absolto e perdoado, o chorou com rio de lágrimas por todos os dias e noites de sua vida (Sl;. 41,4); aquele finalmente de quem disse o mesmo Deus que tinha achado nele um homem à medida do seu coração (At 13,22). Este era Davi. E Jó, quem era? O espelho da paciência, a coluna da constância, a regra da conformidade com a vontade divina, aquele a quem Deus pôs em campo contra todo o poder; astúcias e máquinas do inferno (Jó 1,12); aquele que na próspera e adversa fortuna, com a mesma igualdade de ânimo, recebia da mão de Deus os bens, e lhe agradecia os males (Jó 2,10); aquele com quem nasceu e crescia juntamente com a idade, a compaixão dos trabalhos alheios, a misericórdia, a piedade com todos (Jó 29,15); aquele que, como ele dizia, era os olhos do cego, os pés do manco, o pai dos órfãos, o amparo das viúvas, o remédio dos necessitados, e que nunca comeu uma fatia de pão que não partisse dela com os pobres (Jó 31,17); aquele finalmente a quem canonizou o mesmo Deus, não só por inocente, mas pelo maior justo e santo de todo o mundo (Jó 1,8). Este era Jó e este Davi, e cada um deles muito mais do que eu tenho dito, e do que se pode dizer. Agora pergunto: E se qualquer de nós se achara com a vida de um destes dois homens, não se atrevera a esperar pela morte muito confiadamente? Se vivemos como os que vivem e como os que vemos morrer; certo é que sim. E contudo, nem Davi, nem Jó, com tanto cabedal de virtudes, com tantos tesouros de merecimento, e o que é mais, com tantos testemunhos do céu, tiveram confiança para que os tomasse de repente o momento da morte: ambos pediram tempo a Deus para meter tempo entre a morte e a vida.
Mas para que me dilato eu em buscar exemplos estranhos, quando tenho presente em sua casa, e no seu dia, o mais nosso, e mais admirável de todos. Acabou Santo Antônio a vida em tempo, que a idade lhe prometia ainda muitos anos, porque não tinha mais de trinta e seis. E que fez, muitos dias antes? Despede-se de todas as ocupações, ainda que tão santas e tão suas; deixa a cidade, vai-se a um deserto, e ali só com Deus e consigo, dispôs muito devagar e muito de propósito para quando o Senhor o chamasse. Verdadeiramente que nenhuma consideração me faz fazer maior conceito da morte, nem me causa maior horror daquele perigoso momento, que esta última ação de Santo Antônio. Que corte Santo Antônio o fio ordinário de sua vida, e que sendo a sua vida qual era, faça mudança de vida para esperar pela morte! Dizei-me, Santo meu, que vida era a vossa? Não era a mais inocente, a mais pura, a mais rigorosa? O vosso vestido, não era um cilício inteiro atado com uma corda? A vossa mesa, não era um perpétuo jejum, e uma pobre e continuada abstinência? A vossa cama, não era uma dura tábua, ou a terra nua? Não passáveis a maior parte da noite em oração e contemplação dos mistérios divinos? Os dias, não gastáveis em pregar, em converter pecadores, em reduzir hereges? Os vossos pensamentos, não eram sempre do céu e de Deus? As vossas palavras, não eram raios de luz e de fogo, com que alumiáveis entendimentos e abrasáveis corações? As vossas obras, não eram saúde a enfermos, vista a cegos, vida a mortos, finalmente prodígios e milagres estupendos em testemunho da fé que pregáveis? Pois com esta vida, ainda fugis do mundo para um deserto? Com esta vida, ainda vos retirais de vós para vós, e para vos unirdes mais com Deus? Com esta vida, ainda vos não atreveis a morrer? Ainda quereis acabar esta vida e fazer outra? Ainda quereis meter tempo entre esta vida e a morte? Pare o discurso nesta admiração, porque, nem eu sei como ir por diante, nem haverá quem deseje maior, mais apertada e mais temerosa prova de quão necessária seja esta antecipada prevenção para quem sabe que há de morrer, e o que é morrer.
Este é o único antídoto contra o veneno da morte; este é o único e só eficaz remédio contra todos seus perigos e dificuldades: acabar a vida antes que a vida se acabe. Se a morte é terrível por ser uma, com esta prevenção serão duas; se é terrível por ser incerta, com esta prevenção será certa; se é terrível ser momentânea, com esta prevenção será tempo, e dará tempo. Desta maneira fareinos da mesma víbora a triaga, e o mesmo pó que somos, será o corretivo do pó que havemos de ser: Pulvis es, in pulverem reverteris.
§VI
Quantos mortos que ainda lhes faltam por viver muitos anos! Propósitos: À imitação de Elias, seguindo o conselho do Espírito Santo, demos a Deus o tempo que sempre é seu, enquanto é também nosso, e não quando já não temos parte nele.
Parece-me, senhores meus, que tenho satisfeito ao meu argumento, e tanto em comum, como em cada uma das suas partes, demonstrado a verdade dele, mais pela evidência da matéria que pela força das razões, menos necessárias a um auditório de tanto juízo e letras. Para o que se deve colher desta demonstração, quisera eu que subisse agora a este lugar quem com diferente espírito e eficácia perorasse. Mas já que hei de ser eu, ajudai-me a pedir de novo à divina bondade o favor e auxílio de sua graça, que para matéria de tanto peso nos é necessária.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.