Por Gregório de Matos (1696)
3 Vós dizeis-me irada e ingrata,
co'a mão na barguilha posta
"eu me verei bem disposta!"
e eu digo-vos: "Quien se mata?"
eu vou-me à putinha grata,
e descarrego o culhão,
vós ides ao vosso cão,
e regalais o pasmado,
leve ao diabo enganado,
e andemos co'a procissão.
4 Chica, fazei-me justiça,
e não vo-la faça eu só,
eu vos deixo o vosso có,
vós deixai-me a minha piça:
e se o demo vos atiça
mamar numa e noutra teta,
pica branca, e pica preta,
eu também por me fartar
quero esta pica trilhar
numa greta, e noutra greta.
5 Dizem, que o ano passado
mantínheis dez fodilhões
branco um, nove canzarrões,
o branco era o dizimado,
o branco era o escornado,
por ter pouco, e brando nabo;
hoje o vosso sujo rabo
me quer a mim dizimar,
que não hei de suportar
ser dízimo do diabo.
6 Chica, dormi-vos por lá,
tendo de negros um cento,
que o pau branco é corticento
e o negro é jacarandá:
e deixai-me andar por cá
entre as negras do meu jeito,
mas perdendo-me o respeito,
se o vosso guardar quereis,
contra o direito obrareis,
sendo amiga do direito.
7 Sois puta de entranha dura,
e inda que amiga do alho
sois uma arranha-caralho
sem carinho, nem brandura:
dou ao demo a puta escura,
que estando a todas exposta,
não faz festa ao de que gosta;
dou ao demo o quies vel qui,
e não para quem a encosta.
8 Quem não afaga o sendeiro,
de que gosta, e bem lhe sabe,
vá-se dormir cuma trave,
e esfregue-se cum coqueiro:
seja o cono presenteiro,
faça o mimo o agasalho
ao membro, que lhe dá o alho,
e se de carinho é escassa,
ou vá se enforcar, ou faça
do seu dedo o seu caralho.
ENFURECIDO O POETA DAQUELLES CIUMES DESCOMPOSTOS LHE FAZ ESTA
HORRENDA ANATOMIA.
Vá de aparelho,
vá de painel,
venha um pincel
retratarei a Chica
e seu besbelho.
É pois o caso
que a arte obriga,
que pinte a espiga
da urtiga primeiro
e logo o vaso.
A negra testa
de cuiambuca
a põe tão cuca,
que testa nasce, e em cuia
desembesta.
Os dous olhinhos
com ser pequenos
são dois venenos,
não do mesmo tamanho
maiorzinhos.
Nariz de preta
de cocras posto,
que pelo rosto
anda sempre buscando
onde se meta.
Boca sacada
com tal largura,
que a dentadura
passeia por ali
desencalmada.
Barbinha aguda
como sovela,
não temo a ela,
mas hei medo à barba:
Deus me acuda.
Pescoço longo,
socó com saia,
a quem dão vaia
negros, com quem se farta
de mondongo.
Tenho chegado
ao meu feitio
do corpo esguio,
chato de embigo,
erguido a cada lado.
Peito lazeira
tão derribado,
que é retratado
ao peito espaldar
debaixo da viseira.
Junto as cavernas
tem as perninhas
tão delgadinhas,
não sei, como se tem
naquelas pernas.
Cada pé junto
forma a peanha,
onde se amanha
a estátua do pernil,
e do presunto.
Anca de vaca
mui derribada,
mais cavalgada,
que sela de rocim,
charel de faca.
Puta canalha,
torpe, e mal feita,
a quem se ajeita
uma estátua de trapo
cheia de palha.
Vamos ao sundo
de tão mau jeito,
que é largo, e estreito
do rosto estreito, e largo
do profundo.
Um vaso atroz,
cuja portada
é debruada
com releixos na boca,
como noz.
Horrível odre,
que pelo cabo
toma de rabo
andar são, e feder
a cousa podre.
Modos gatunos
tem sempre francos,
arranha os Brancos,
e afaga os membros só
dos Tapanhunos.
Tenho acabada
a obra, agora
rasguem-na embora,
que eu não quero ver Chica
nem pintada.
A HUM AMIGO APADRINHANDOLHE A ESCRAVA DE ALCUNHA A JACUPEMA, A
QUEM SUA SENHORA QUERIA CASTIGAR PELO FURTO DE HUM OVO.
Se acaso furtou, Senhor,
algum ovo a Jacupema,
o fez só, para que gema
cos pesos do meu amor:
não creio do seu primor,
que furte a sua senhora,
sendo franca, e não avara,
porque para ela campar,
escusa claras comprar,
pois negra val mais que clara.
À PENDENCIA QUE TEVE MARANA DE LEMOS COM VICENCIA POR RESPEYTO
DE ANTONIO DE MOURA A QUE ACODIO HUM CAPm. HYPOCRITA QUE TRAZIA
HUM CRUCIFIXO AO PESCOÇO.
1 Botou Vicência uma armada
de uma canoa, e dous remos
contra Marana de Lemos,
que estava numa emboscada:
por uma encoberta estrada
entrou no reduto, e logo
o Capitão, disse "fogo":
e vendo arder o seu fato
o Capitão, que é beato,
tomou as de Vila Diogo.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.