Por Padre Antônio Vieira (1657)
Foram convidados a umas bodas a luz e o sol: Cristo e Maria. Faltou no meio do convite aquele licor que noutra mesa, depois de o sol posto e antes de o sol se pôr, deu matéria a tão grandes mistérios. Quis a piedosa Mãe acudir à falta, falou ao Filho, mas respondeu o senhor tão secamente como se negara sê-lo: Quid mihi et tibi est mulier? Nondum venit hora mea (Jo. 2, 4): Que há de mim para ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora. – Aqui reparo: esta hora não era de fazer bem? Não era de encobrir e acudir a uma falta? Não era de remediar uma necessidade? Pois como responde, Cristo que não era chegada a sua hora? Nondum venit hora mea? E se não era chegada a sua hora, como trata a Senhora do remédio? Era chegada a hora de Maria, e não era chegada a hora de Cristo? Sim, que Maria é luz, e Cristo é sol, e a hora do sol sempre vem depois da hora da luz: Nondum venit hora mea. Ainda não era vinda a hora do sol, e a hora da luz já tinha chegado. Por isso disse Cristo à sua mãe com grande energia: Quid mihi et tibi? Como se dissera: Reparai Senhora na diferença que há de mim a vós na matéria de socorrer aos homens, como agora quereis que eu faça. Vós os socorreis, e eu os socorro; vós lhes acudis, e eu lhes acudo; vós os remediais, e eu os remedeio, mas vós primeiro, e eu depois; vós logo, e eu mais devagar; vós na vossa hora, que é antes da minha, e eu na minha, que é depois da vossa: Nondum venit hora mea. É aquela gloriosa diferença que Santo Anselmo se atreveu a dizer uma vez, e todos depois dele a repetiram tantas: Velocior nonnunquam salus memorato nomine Mariae quam invocato nomine Jesus: Que algumas vezes é mais apressado o remédio, nomeado o nome de Maria que invocado o de Jesus. – Algumas vezes, disse o santo, e quisera eu que dissera sempre, ou quase sempre. Vede se tenho razão. Todos os caminhos de Cristo e os de Maria foram para remédio do homem; mas tenho eu notado que são mui diferentes as carroças que este Rei e Rainha do céu escolheram para correr à posta em nosso remédio. Cristo escolheu por carroça o sol, e Maria escolheu a luz. O primeiro viu-o Davi: In sole possuit tabernaculum suum. O segundo viu-o S. João: Et luna sub pedibus ejus13. Cá nas cortes da terra vemos o rei e a rainha, quando saem, passearem juntos na mesma carroça; o Rei e a Rainha do céu, por que o não fariam assim? Por que razão não aparece a Rainha do céu na mesma carroça do sol, como seu Filho? Por que divide carroça e escolheu para si a da lua? Eu o direi. A lua é muito mais ligeira que o sol em correr o mundo. O sol corre o mundo pelos signos do zodíaco em um ano; a lua em menos de trinta dias. O sol corre o mundo em um ano, uma só vez; a lua doze vezes, e ainda lhe sobejam dias e horas. E como as manchadas pias que rodam a carroça da lua são muito mais ligeiras que os cavalos fogosos que tiram pelo carro do sol, por isso Cristo aparece no carro do sol, e Maria no da lua. Não é consideração minha, senão verdade profética, confirmada com o testemunho de uma e outra visão, e com os efeitos de ambas. Tomau Cristo para si o carro do sol, e que se seguiu? Exultavit ur gigas ad currendam viam, diz Davi (Sl.18,6): Largou o sol as rédeas ao carro, e correu Cristo com passos de gigante. – Tomau Maria para si a carroça da lua, e que se seguiu? Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae, ut volaret, diz S. João (Apc. 12,14): Estando com a lua debaixo dos pés, deram-se a Maria duas asas de águia, para que voasse. – De sorte que Cristo no carro do sol corre com passos de gigante, e Maria na carroça da lua voa com asas de águia.
E quanto vai das águias aos gigantes, e das asas aos pés, e do voar ao correr, tanto excede a ligeireza velocíssima com que nos socorre Maria à presteza, posto que grande, com que nos socorre Cristo.Não vos acode primeiro nas vossas cousas o advogado que o juiz? Pois Cristo é o juiz, e Maria a advogada.
Mas não deixemos passar sem ponderação aquela advertência do evangelista: Aquilae magnae. Que as asas com que viu a Senhora, não só eram de águia, senão de águia grande. De maneira que Cristo, para correr em nosso remédio com passos mais que de homem, tomau pés de gigante: Exultavit ut gigas; e a Senhora, para correr em nosso remédio com passos mais que de gigante tomau asas de águia: Datae sunt mulieri alae duae aquilae. Mas essas asas não foram de qualquer águia, senão de águia grande: Aquilae magnae, para que a competência ou a vantagem fosse de gigante a gigante. Que coisa é uma águia grande, senão um gigante das aves? Cristo correndo como gigante, mas como gigante dos homens; a Senhora correndo como gigante, mas como gigante das aves. Cristo, como gigante com pés, a Senhora como gigante com asas. Cristo como gigante que corre, a Senhora como gigante que voa. Cristo como gigante da terra, a Senhora como gigante do ar. Mas assim havia de ser para fazer a Senhora em nosso remédio os encarecimentos verdades. O maior encarecimento de acudir com a maior presteza, é acudir pelo ar. Assim o faz a piedosa Virgem. Cristo com passos de gigante acode aos homens a toda a pressa, mas a Senhora com asas de águia acode-lhes pelo ar. Isto mesmo é ser luz, que pelo ar nos vem toda.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.