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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

O “Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado na Capela Real, em Lisboa, durante a Quaresma, sendo tradicionalmente datado de 1669. No contexto da corte portuguesa, Vieira reflete sobre o poder e o governo, criticando decisões injustas e a escolha inadequada de pessoas para cargos. Defende que os governantes devem agir com justiça, prudência e respeito ao mérito.

Nescitis quid petatis1.

§I

Assunto: um remédio para os males de todas as cortes do mundo: a consolação dos maldespachados, baseando-se no pedido indefinido da mãe dos Zebedeus.

Dois lugares e dois pretendentes, um memorial e uma intercessora, um príncipe e um despacho, são a representação política e a história cristã deste Evangelho. Nos lugares temos as mercês; nos pretendentes, as ambições; na intercessora, as valias; no memorial, os requerimentos; no príncipe, o poder e a justiça; no despacho, o desengano e o exemplo. Este último há de ser a veia que hoje havemos de sangrar. Queira Deus que a acertemos, que é muito funda. A enfermidade mais geral de que adoecem as cortes, e a dor e o achaque de que todos comumente se queixam, é de maldespachados. Em alguns se queixa o merecimento, em outros a necessidade, em muitos a própria estimação, e em todos o costume. O benemérito chama-lhe sem-razão, o necessitado diz que é crueldade, o presumido toma-o por agravo, e o mais modesto dá-lhe nome de desgraça e pouca ventura. E que não houvesse até agora no púlpito quem tomasse por assunto a consolação desta queixa, o alívio desta melancolia, o antídoto deste veneno, e a cura desta enfermidade? Muitos dos enfermos bem haviam mister um hospital. Mas à obrigação desta cadeira, que é de medicina das almas, só lhe toca disputar a doença e receitar o remédio. E se este for provado e pouco custoso, será fácil de aplicar Ora, eu, movido da obrigação e da piedade, e parecendo-me esta matéria uma das mais importantes para todas as cortes do mundo, e a mais necessária para a nossa no tempo presente, determino pregar hoje a consolação dos maldespachados. Nem com a ambição dos Zebedeus hei de condenar os pretendentes, nem com a negociação da mãe hei de argüir os intercessores, nem com a resolução de Cristo hei de abonar os príncipes e os ministros; só com o desengano do requerimento: Nescitis quid petatis, pretendo consolar eficazmente a todos os que se queixam dos seus despachos, ou se sentem dos alheios. Consolar um maldespachado é o assunto do sermão. Se com a graça divina se conseguir o intento, sairão hoje daqui os pretendentes comedidos, os ministros aliviados, os bemdespachados confusos e os maldespachados contentes. Ajude Deus o zelo com que ele sabe que fiz eleição deste ponto.

II

Os que devem ser excluídos da lista dos mal despachados. Considerar: o que éreis e o que sois: Adão, transformado de barro em homem, ainda pretende ser Deus. O que tínheis e o que tendes: a estranha ordem do Faraó aos irmãos de José. Onde estáveis e onde estais: a origem humilde de Davi. Por que não se queixaram os apóstolos ante a negativa de Cristo?

Nescitis quid petatis.

Havendo pois de consolar hoje os maldespachados, aquela gente muita e não vulgar, de quem se pode dizer: Non est qui consoletur eam2 para que procedamos distintamente e falemos só com quem devemos falar, é necessário excluir primeiro desta honrada lista os que importunamente e sem razão se querem meter nela. E quem são estes? São aqueles, que sendo hoje tanto mais do que eram, e tendo tanto mais do que tinham, e estando tanto mais levantados do que estavam, ainda se queixam e se chamam maldespachados.

Adão, antes de Deus o formar, não era nada; formado, era uma estátua de barro lançada naquele chão; bafejou-o Deus, pôs-se Adão em pés, começou a ser homem, e foi com tão extraordinária fortuna, que tinha, diz o texto, ele só três presidências: a presidência da terra sobre todos os animais; a presidência do ar sobre todas as aves; a presidência do mar sobre todos os peixes. Estava bem despachado Adão? Parece que não podia ser mais, nem melhor. Contudo nem ele, nem sua mulher ficaram contentes; ainda pretendiam. E quê? Não mais que ser como Deus: Eritis sicut dii3. Há tal ambição de subir? Há tal desatino de crescer? Anteontem nada, ontem barro, hoje homem, amanhã Deus? Não se lembrará Adão do que era ontem, e muito mais do que era anteontem? Quem ontem era barro, não se contentará com ser hoje homem, e o primeiro homem? Quem anteontem era nada, não se contentará com ser hoje tudo, e mandar tudo? Não; porque já então era Adão como hoje são muitos de seus filhos, que saem como ele ao barro e ao nada de que foram criados. Malcriados, e maus criados. Por isso descontentes e ingratos, quando deveram estar muito contentes e mui agradecidos. E a razão desta sem-razão é porque dos sentidos perderam a vista, e das potências a memória; nem olham para o que são, nem se lembram do que foram.

(continua...)

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