Por Padre Antônio Vieira (1655)
Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente, não só com os preceitos de Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do principe dos oradores evangélicos, S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno, S. Bernardo, S. Cipriano, e com as famosíssimas orações de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, S. Gregório, e muitos outros, se achamos Evangelhos apostilados com nomes de sermões e homilias, uma coisa é expor, e outra é pregar, uma ensinar, e outra persuadir. E desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo Antônio de Pádua e S. Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira cousa que busco.
§VII
A Ciência: será a falta de ciência a cousa da esterilidade da palavra de Deus? O pregador deve pregar do seu e não do alheio; deve lutar com as próprias armas, como Davi que recusou as armas de Soul. Cristo encontrou os apóstolos refazendo as suas redes;como as redes, a pregação deve ter chumbo e cortiça. Na descida do Espírito Santo as línguas de fogo desceram sobre a cabeça dos apóstolos e não sobre as línguas, para significar que o que sai da boca pára nos ouvidos, mas o que sai pela boca, mas da cabeça, convence o entendimento. Razão por que desceu uma língua sobre cada apóstolo. O Batista, entretanto, contraria esta asserção do autor.
Será porventura a falta de ciência, que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram, e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão como suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio, porque o alheio e o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da ciência, e queixava-me eu antigamente desta nossa Mãe; já que comeu o pomo, por que lhe não guardou as pevides? Não seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chegaram os encargos dela? Pois, por que o não fez assim Eva? Porque o pomo era furtado, e o alheio é bom para comer, mas não é bom para semear; é bom para comer; porque dizem que é saboroso; não é bom para semear, porque não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa, mas esteja certo que se nasce, não há de deitar raízes: e o que não tem raízes, não pode dar frutos. Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto: porque pregam o alheio e não o seu: Semen soum. O pregar é entrar em batalha com os vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória16. Quando Davi saiu a campo como gigante, ofereceu-lhe Soul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja Davi. As armas de Soul só servem a Soul, as de Davi a Davi, e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante.
Fez Cristo aos apóstolos pescadores de homens, que foi ordenálos de pregadores. E que faziam os apóstolos? Diz o texto, que estavam: Reficientes retia sua: Refazendo as redes suas17.. Eram as redes dos apóstolos, e não eram alheias. Notai: Retia sua. Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custaram o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas, e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque, nesta pesca de entendimentos, só quem sabe fazer a rede, sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe a malha. Quem não enfia, nem ata, como há de fazer rede? E quem não sabe enfiar, nem sabe atar, como há de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves, e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça. As razões não hão de ser enxertadas, hão de ser nascidas. O pregar, não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf. Acesso em: 10 ago. 2026.