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#Contos#Literatura Brasileira

Um para o outro

Por Machado de Assis (1879)

Henriqueta e Julião não gastaram muito tempo a compreender o verdadeiro estado das coisas; e quando compreenderam tiveram um instante de despeito, arrependeram-se da abstenção, da resistência, da dissimulação imposta aos sentimentos que havia neles; mas lembravam-se um do outro, e aprovavam-se.

Um dia tiveram notícia oficial de que ia efetuar-se o casamento de Pimentel e Fernandinha. Julião recebeu-a com impassibilidade; Henriqueta chorou muito durante a noite. No dia seguinte viu-lhe Julião os olhos vermelhos.

— Você chorou?

— Não, murmurou a moça.

— Chorou, sim; porque foi?

Henriqueta calou-se.

— Porque foi, Henriqueta? insistiu Julião assustado.

A resposta de Henriqueta foi lançar-lhe os braços ao pescoço, e pousar-lhe a fronte no ombro. Julião levantou-lhe brandamente a cabeça; olhou para ela; teve uma súbita intuição da realidade.

— Henriqueta! disse ele. Você.., você o amava?

A moça baixou os olhos; Julião entendeu tudo; deixou-se cair numa cadeira, com o rosto nas mãos. Foi a vez de Henriqueta, que se chegou a ele, arredou-lhe as mãos, viu-lhe a expressão abatida do rosto; não lhe perguntou nada. Com as mãos cingidas, os olhos para o azul do céu, ficaram assim longo tempo a saborear a dor de seu voluntário e ocioso sacrifício. Compreenderam que nenhum deles quisera ser o primeiro a deixar a família, e daí a inércia e a dissimulação. Talvez nessa hora viam, ao longe, a figura lívida do pai; talvez lhe escutassem a palavra última:

— Vivam um para o outro.

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