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#Contos#Literatura Brasileira

Rui de Leão

Por Machado de Assis (1872)

Jogaram até tarde; tomaram chá; e Rui não morreu como o outro esperava. "Foi naturalmente o patife do criado", pensou D. Martim. Mas o criado estava igualmente espantado. Olhava para D. Martim, e não sabia explicar aquele mistério. Quando D. Martim de lá saiu, foi acompanhado pelo cúmplice, que lhe jurou ter posto no chá a dose de veneno convencionada.

- Mas então que foi aquilo?

- Eu sei lá, senhor... Creio que um tiro...

- E prometes ajudar-me na empresa?...

- Prometo.

- Bem; iremos ao tiro.

Prepararam emboscada ao invencível Rui de Leão; deu-se o caso na rua do Piolho, em noite de tormenta, estando a rua mais deserta que um Saara. O criado armou-se com o arcabuz do crime; e desfechou o tiro na cara de Rui. A vítima soltou um espirro e continuou tranquilamente a viagem.

O criado desmaiou.

Rui compreendia que D. Martim lhe preparava golpes sobre golpes; mas, confiado no elixir do pajé, mostrava-se indiferente às emboscadas e ao veneno do rival.

A única questão seria a infidelidade da mulher. Mas esta era um modelo de amor e constância. Amava-o com ardor apesar de ir já longe a lua de mel. Por isso mesmo durou pouco a felicidade. Madalena faleceu de uma pneumonia aguda.

- Quê! - exclamou o pobre imortal.

- Pois eu hei de ver morrer todos aqueles a quem amo e hei de arrastar este castigo de vida?

Enterrou-se a mulher de Rui com a pompa digna da riqueza do marido.

Aborrecido por estar no lugar onde lhe morrera a esposa, Rui determinou partir para a Europa e assim o fez em 1825 depois de declarar a sua intenção de ficar brasileiro. D. Martim foi para Angola, onde morreu de desgostos. Correram os anos.

Em 1835 aportou outra vez ao Rio de Janeiro o invencível Rui de Leão, disposto a não viajar mais e a esperar aqui o dia do juízo final. Achou o espírito público agitado com a política. Não havia loja em que se não conversava da cousa pública; e os nomes tais e tais eram citados como modelos do estadista, conforme pertenciam a esta ou aquela cor política.

É difícil estar entre políticos muito tempo sem adquirir a febre que os devora. Além disso Rui de Leão não tinha ensaiado esse gênero de distração. Nem a ciência, nem o amor, nem o jogo lhe apresentavam pasto suficiente ao seu espírito sedento de ocupação.

Para se calcular bem a situação do nosso herói basta ter em lembrança o tédio de um dia em que não temos nada que fazer. Multipliquemos esse dia pela eternidade e aí teremos a tortura moral deste verídico sujeito escolhido pelo destino para ser o exemplo único de uma aborrecida imortalidade. A política correspondeu aos desejos de Rui de Leão.

Desde que entrou em comunicação com os chefes de um dos partidos, viu logo que aquilo era turbilhão para uns trinta ou quarenta anos. "Ao menos", disse ele consigo, "passarei este tempo mais satisfeito até que descubra outro meio que me substitua a política." Fundou logo uma gazeta denominada A Alvorada, cujo programa era vago como a hora que o título fazia lembrar. Um dos períodos mais práticos era este:

Reunir todos os elementos de prosperidade em favor da liberdade, consubstanciar a ordem nas aspirações do país, transformar o torpor em atividade, eis o programa da imprensa independente e é o meu.

Os leitores gostaram deste programa; mas o jornal adverso, que se denominara O Grito da Nação, atacou os princípios da Alvorada com esta simples pergunta:

Onde é que o colega viu que a liberdade prática, única, resoluta, firme, invencível pode, abraçando elementos contrários, ostentar princípios, ideias, melhoramentos, que, simbolizando a honra de uma época, destruam a poeira de um passado recente?

Tal foi o começo de uma polêmica estrondosa que ainda hoje existiria se a morte igual para os homens e as gazetas não tivesse destruído o Grito e a Alvorada, dentro de alguns meses.

Os talentos de jornalista de nosso Rui de Leão foram apreciados por amigos e adversários: efetivamente, Rui tinha a capacidade especial que se exige na imprensa política. O Grito da Nação andou atrapalhado durante a existência da Alvorada, que dias poucos lhe sobreviveu.

O partido de Rui esperou a primeira ocasião para apresentá-lo candidato por uma das províncias, o que aconteceu pouco tempo antes da morte da gazeta. A candidatura foi aceita pelos caudilhos da localidade. A Alvorada mencionou o fato como a aurora de uma grande vida política, pois o digno Rui de Leão era, nem mais nem menos, um homem de Plutarco.

- Quem é este Rui de Leão? - perguntaram uns.

- Não sei - respondiam outros -, mas parece que é um grande homem.

- Parece que sim.

Onde quer que se falasse de Rui, manifestava-se logo grandes esperanças em favor dele. Se ele passava, era apontado como um grande político, um Pitt, um Pombal. De maneira que, antes de entrar no parlamento, já o nosso Rui de Leão tinha a reputação feita. Se morresse logo, morria em cheiro de santidade. Mas como morreria o imortal? Foi eleito.

(continua...)

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