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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Na Ásia Menor os Russos prosperam. A tomada de Ardahan compromete consideravelmente a situação dos Turcos. A guarnição de Ardahan era de oito mil homens e parece que a resistência foi débil e ligeiramente covarde. Os Russos, senhores de Ardahan, podem fazer marchar com segurança uma outra coluna de exército sobre Erzerum. Os Turcos aí não podem oferecer uma defesa valiosa; diz-se mesmo que já abandonaram Erzerum e formaram mais para oeste um campo entrincheirado; se assim é, tomada a fortaleza de Kars e ocupada Erzerum, a Arménia está nas mãos dos Russos, e a campanha da Ásia Menor findou. Alguns telegramas de Constantinopla dizem, é verdade, que os Turcos retomaram Ardahan; mas esta notícia foi mandada para Constantinopla por chefes turcos, que dizem tê-la recebido do kamaikan de Daghestan, que declara tê-la recebido do kamaikan de uma outra tribo, que afirma tê-la ouvido dizer a um circassiano! E aqui está o sistema de informações do Ministério da Guerra em Constantinopla! Parece de uma ópera cómica, com música de Offenbach! O movimento de insurreição no Cáucaso com que os Turcos tanto contavam, abortou miseravelmente: algumas tribos circassianas, com efeito, levantaram-se mas sem organização, sem táctica, e em número muito diminuto para embaraçarem seriamente os Russos; o movimento foi facilmente dominado; diz-se que os Russos fizeram nos primeiros dias uma repressão sanguinária e feroz das tribos rebeldes: para assustar as populações faziam passar os revoltosos feitos prisioneiros, através das aldeias, carregados de grilhões, espicaçados pelas lanças dos cossacos e conduzidos como animais ferozes.

A tomada de Sokum Kale pelos turcos, que eles tanto cantaram, é, no fim de tudo, um feito insignificante, inútil e, por assim dizer, platónico. Sokum é uma pequena aldeia marítima, com casebres de pau, deliciosa como situação pitoresca, entre as suas colinas e os seus bosques de laranjeiras, mas inteiramente destituída de qualquer importância estratégica. Nas províncias do Sul da Ásia Menor, as tribos beduínas, inimigas do Turco, começam a mostrar uma agitação inquietadora; têm aparecido em força junto de Jerusalém e em todo o vale do Jordão; os governadores locais pedem reforços para Constantinopla; uma insurreição beduína seria, neste momento; mais uma complicação infeliz, na lista terrível das complicações infelizes da Turquia.

Em Constantinopla, «está-se com a cabeça perdida»: o ministério, a câmara, o sultão, os softas, tudo está numa excitação aguda de desconfiança. O público não confia nem nos generais, nem no ministro da Guerra; diz-se que o ministério, que sabe os podres, não confia no exército, que nem está armado nem equipado, nem preparado, e que a passagem do Danúbio pelos Russos será o começo da catástrofe; o sultão vive num estado de excitação cerebral, tanto mais perigosa que as grandes doenças nervosas são hereditárias na família dos Osmanlis; e, quando soube da queda de Ardahan teve um ataque violento de raiva epiléptica; percorria as salas, dando gritos, rojava-se e dilacerava o fato. Os softas, isto é, a parte inteligente, activa, empreendedora da população, preparam-se, evidentemente; têm feito compras consideráveis de armas, especialmente revólveres; já têm organizado, como devem saber pelo telégrafo, manifestações e esboços de sedições. Isto obrigou o Governo a declarar Constantinopla em estado de sítio: o fim desta medida é sobretudo apreender as armas que os softas têm ultimamente adquirido; mas, num país muçulmano, este fim é difícil de atingir; as armas são guardadas ou nas mesquitas ou nos quartos das mulheres, e como estes dois lugares são para o muçulmano invioláveis a apreensão das armas é impossível. Ora é evidente que a hostilidade dos softas não é só dirigida contra os ministros, mas contra o próprio sultão – de facto contra a dinastia; e, portanto, é fácil de ver que perigo corre a família dos Osmanlis, e com ela o velho regime turco.

A Grécia não podia deixar, no meio de todas as amarguras por que passa a Turquia, de vir ajuntar a sua gota de fel. Em Atenas repetem-se as manifestações belicosas contra a Turquia, e é de crer que o novo Governo, formado de elementos favoráveis à guerra e sob a pressão de um forte sentimento nacional, se lance na contenda e aproveite o grande embaraço turco para ajustar certas contas históricas com a Porta. Assim, por todos os lados, a situação da Turquia se escurece; é este o momento que se escolheu para dar ao sultão um sobrenome dinástico sabem que nome se adoptou? O Vitorioso!

Os Russos, por seu lado, acumulam, no Danúbio uma invasão esmagadora: parece que o

(continua...)

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