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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

O Conde d'Abranhos apresenta a falsa biografia de um político ambicioso narrada por seu fiel secretário. Com humor e ironia, a obra satiriza a busca por prestígio, o oportunismo e a hipocrisia presentes na vida pública. Ao acompanhar a ascensão do protagonista, o leitor encontra uma crítica mordaz aos costumes e à política da sociedade portuguesa.

NOTAS BIOGRÁFICAS POR Z. ZAGALO.

À EX.ma SRª CONDESSA D'ABRANHOS

Minha Senhora: – Tive, durante quinze anos, a honra tão invejada de ser o secretário particular de seu Ex.mo Marido, Alípio Severo Abranhos, Conde d'Abranhos, e consumo-me, desde o dia da sua morte, no desejo de glorificar a memória deste varão eminente, Orador, Publicista, Estadista, Legislador e Filósofo.

V. Exª, Srª Condessa, ergue-lhe neste momento, no cemitério dos Prazeres, um mausoléu comemorativo, onde o cinzel do escultor Craveiro faz reviver a nobre figura do Conde.

Respeitosamente me arrojo, Srª Condessa, a imitar o piedoso acto de V. Exª, e neste livro – como o artista esculpiu no mármore o seu invólucro físico – eu pretendo reconstituir o seu ser moral. A estátua é assim completada pela biografia: na pedra, as gerações contemporâneas poderão contemplar a grandeza da sua atitude e a expressão do seu rosto; no livro, admirarlhe-ão a elevação do espírito e a rectidão da alma.

E quem melhor do que eu poderia tornar conhecido este português histórico – eu, a quem ele fez a confidência das suas crenças, da sua filosofia tão profundamente religiosa, da sua alta ambição, do seu puro amor da Pátria, da sua vasta ciência política? Eu, que tenho presente a sua correspondência, – cuidadosamente arquivada no copiador – os seus manuscritos, os rascunhos dos seus discursos, naquela letra larga e ampla que apresentava similitude com a sua alma; eu, que tive o piedoso cuidado durante quinze anos, de recolher as menores palavras que saíam dos seus lábios – ai! que a anemia ia adelgaçando tão cruelmente – e, apenas entrava no meu quarto andar da Rua do Carvalho, – ninho doméstico que a sua generosidade me permitiu adquirir – escrevia as conversas que, à hora do chá, ou mais tarde no seu escritório, me enlevavam de admiração.

Eu fui a testemunha da sua vida. Outros o viram em S. Bento, nas Secretarias, no Paço, no Grémio, – mas só eu o vi, perdoe-me V. Exª, Srª Condessa, a familiar expressão – em chinelos e de «robe-de-chambre».

Todos conhecem o grande homem. Eu, conheço o homem. Eu – e V. Exª, de quem ele me dizia, pouco antes de morrer, no momento em que lhe dava a colher de bromureto de potássio: –«Zagalo amigo, ao fim da experiência de oito anos de casamento, a Lulu (porque nos momentos de expansão comigo, era este o nome que ele lhe dava, Srª Condessa – pois que, ordinariamen te, aos inferiores dizia, a Condessa, e aos seus iguais, a D. Catarina) a Lulu, amigo Zagalo, tem sido mais que uma esposa, tem sido «um bálsamo». Referia-se o ilustre marido de V. Exª às circunstâncias dolorosas do seu primeiro casamento, a que ele se costumava, referir, chamando-lhe «uma chaga».

Tais são os motivos, Srª Condessa – o desejo de lhe erguer um monumento espiritual e o meu conhecimento íntimo da sua vida – que me levam, depois de demorada reflexão, a escrever esta biografia do Conde d'Abranhos.

(continua...)

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