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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Seria legitima a publicação d'esses originaes que meu Pae deixara na gaveta da sua mesa de trabalho, que a sua penna núo retocara, que, na sua necessidade de perfeição, de certo consideraria como pastelões informes, elle que, escre vendo a Oliveira Martins, chamava aos Maias € um cartapacio extenso e sobrecarregado % e fallava da Reliquia a Luiz de Magalhães como d'um livreco defeituoso?

E, por outro lado, podiamos guardar para nós, egoistamente, a descobcrta maravilhosa, todo esse mundo 'que nos fôra desvendado, creado por meu Pae corn o seu sentimento da realidade, a sua arte de composição, a sua visão dos homens e das cousas, o seu espirito critico, a sua ironia, a sua origina[idade ?

E seria razoavel sepultar no fundo d'uma gaveta todos esses pedaços de vida palpitante, pela simples razão de serem apenas primeiras fórmas, escriptas ao correr da penna, sem preocupações de estylo, sem a absoluta perfeição de fórma da ou do Mandarim ?

Eu creio que a obra d'arte nho está exclusivamente na fórma, e que, pelo contrario, o seu maior valor reside na solidez da estructura d'um romance, na originalidade do assumpto, na agudeza da observação, na segurança da psychologia.

O facto mesmo de A Capital e A Tragedia da Rua das Flores terem sido mais tarde condensados nos dois volumes dos Maias, não me parece ainda razão sufficiente para condemnar aquelles dois romances a não verem a luz do sol, da critica e da publicidade. E se, na Tragedia da nua das Flo• res, o episodio sentimental em torno do qual gira toda a acção tem parentesco com o drama de Maria Eduarda e de Carlos da Maia, se, na Capital, ha tambem uma critica de Lisboa e das suas sociedades, os meios sociaes que estes livros descrevem, os caracteres novos que apresentam, a fórma diversa porque o mesmo assumpto foi tratado, afastam toda a idéa de rep€tição. Os Maias não são assim reeditados sob outras fórmas e outros titulos, mas, pelo contrario, completados com novos elementos, augmentada a galeria dos seus personagens, ficando nós conhecendo mais completamente tudo quanto a meu Pae suggeriu a Lisboa dos ultimos annos do seculo XIX.

Todas estas considerações as pesei demoradamente, A obra em si nunca me deixou duvidas sobre o seu valor intrinseco. Considerei-a logo, desde a primeira leitura, magistral, formidavel mesmo, na sua diversidade, que nos leva offegantes da charge mais caricatural á emoção mais tragica. Em toda ella apparece, resplandecente, profundamente mar• cada, indelevelt Ia griffe du mattre. Apenas a fórma me fazia hesitar, essa fórma imperfeita do primeiro 'acto, ainda por polir, a que não foram limadas as arestas, a que falta o ultimo toque do artista. E quando eu assim ainda hesitava, cahiume entre as maos um dos mclhores livros d'Henri Bordeaux, e, debaixo dos olhos: o seguinte trecho M. Abel Hermant, je crois, observait que te travait du style ne modifle pas le style essentielten¿ent : on períectionne, mais déjà l'on écrtt bien ou mal du premier jct, et tes premiers textes de Chateaubrtand et de Flaubert, sont, comme les demiers: du Chateaubriand et du Flaubert. » E como se esta opinião de peso não bastasse e a Providencia, voando em meu soccorro, quizesse accumular em volta de mim os argumentos decisivos, n'essa noite, ao folhear os Echos de Paris, deparei corn este periodo, pelo qual o meu Pae parecia responder ás minhas hesitações :

Victor Hugo publicou este mez mais um volume — Toule ta Lure. Como o Cid, que airvüa vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno atira de dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A proposito d'este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de versos: que elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a gloria poetica de Hugo. Discussão ociosa. De certo não au gmentam a sua gloria. Essa já está estabelecida e fixa no seu maximo esplendor, com as Contemplations, a Legende des Stêcles e os Chattments. Mas augmentam o nosso conhe cimento do poeta, revelando novos pensamentos, novas emo çÕes, ou fórmas differentes no exprimir as emoções e.os pensa mentos que lhe eram habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que sentia e pensava em verso. Cada verso novo a que nos é desvendado constitue pois um documento novo a sobre o poeta — sobre a sua visão espiritual ou sobre o seu verbo lyrico. Ora quantos mais documentos se reunem sobre c um homem de genio como Hugo, mais completa se torna ' o trabalho critico sobre a sua individualidade e sobre a sua « obra. Para alargar e completar o conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhes as cartas, todos os papeis intimos — até as contas do alfaiate. Assim se tem feito para Lamar tine, para Balzac, etc.



(continua...)

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