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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Imediatamente Gonçalo decidira não jantar, certo dos benefícios daquele jejum até às dez horas, depois de um passeio pelos Bravais e pelo vale da Riosa. E, antes de entrar no quarto para se vestir, empurrou a porta envidraçada sobre a escura escada da cozinha, gritou pela Rosa cozinheira. Mas nem a boa velha, nem o Bento por quem também berrou furiosamente, responderam, no pesado silêncio em que jaziam, como abandonados, esses sombrios fundos de grande laje e de grande abóbada que restavam do antigo Palácio, restaurado por Vicente Ramires depois da sua campanha em Castela, incendiado no tempo de El-Rei D. José I. Então Gonçalo desceu dois degraus da gasta escadaria de pedra e atirou outro dos longos brados com que atroava a Torre - desde que as campainhas andavam desmanchadas. E descia ainda para invadir a cozinha quando a Rosa acudiu. Saíra para o pátio da horta com a filha da Críspola! não sentira o Sr. Doutor!...

- Pois estou a berrar há uma hora! E nem você nem Bento!... E porque não janto. Vou cear à Vila Clara com os amigos.

A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou, desolada. Pois o Sr. Doutor ficava assim em jejum até horas da noite? - Filha dum antigo hortelão da Torre, crescida na Torre, já cozinheira da Torre quando Gonçalo nascera, sempre o tratara por menino, e mesmo por "seu riquinho" até que ele partiu para Coimbra e começou a ser, para ela e para o Bento, o "Sr. Doutor". - E o Sr. Doutor, ao menos, devia tornar o caldinho de galinha, que apurara desde o meio-dia, cheirava que nem feito no céu!

Gonçalo, que nunca discordava da Rosa ou do Bento, consentiu - e já subia, quando reclamou ainda a Rosa para se informar da Críspola, uma desgraçada viúva que, com um rancho faminto de crianças, adoecera pela Páscoa de febres perniciosas.

- A Críspola vai melhor, Sr. Doutor. Já se levanta. Diz a pequena que já se levanta... Mas muitoderreadinha...

Gonçalo desceu logo outro degrau, debruçado na escada, para mergulhar mais confidencialmente naquelas tristezas: - Olhe, oh Rosa, então se a pequena aí está, coitada, que leve para casa à mãe a galinha que eu tinha para jantar. E o caldo... Que leve a panela! Eu tomo uma chávena de chá com biscoitos. E olhe! Mande também dez tostões à Críspola... Mande dois mil réis. Escute! Mas não lhe mande a galinha e o dinheiro assim secamente... Diga que estimo as melhoras, e que lá passarei por casa para saber. E esse animal do Bento que me suba água quente!

No quarto, em mangas de camisa, diante do espelho, um imenso espelho rolando entre colunas douradas, estudou a língua que lhe parecia saburrosa, depois o branco dos olhos, receando a amarelidão de bílis solta. E terminou por se contemplar na sua feição nova, agora que rapara a barba em Lisboa, conservando o bigodinho castanho, frisado e leve, e uma mosca um pouco longa, que lhe alongava mais a face aquilina e fina, sempre duma brancura de nata. O seu desconsolo era o cabelo, bem ondeado, mas tênue e fraco, e, apesar de todas as águas e pomadas, necessitando já risca mais elevada, quase ao meio da testa clara.

- É infernal! Aos trinta anos estou calvo...

(continua...)

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