Por Camilo Castelo Branco (1889)
Disse-me meu irmão que aquele rapaz era uma inteligência superior, mas depravada pelos maus costumes. A razão por que ele viera a nossa casa era muito simples ; encarregara-o seu pai de falar com meu irmão a respeito da remissão de uns foros.
Vasco passou nesse dia por debaixo das minhas janelas : fixou-me, cortejoume, corei, e não me atrevi a segui-lo com os olhos, mas segui-o com o coração. Que suprema miséria, Carlos ! Que renúncia tão impensada faz uma mulher da sua tranquilidade.
Voltou um quarto de hora depois : retirei-me, sem querer mostrar-lhe que o percebia ; fiz-me distraída, por entre as cortinas, a contemplar a marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar precipitado sobre aquele indiferente que me fazia corar e sofrer. Viu-me, adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda. Eu vi o gesto da cortesia, mas fingi-me e não lhe correspondi. Foi isto um heroísmo, não é verdade ? Seria ; mas eu tive remorsos, apenas ele desaparecera, de o tratar tão grosseiramente.
Demorei-me nestas puerilidades, meu amigo, porque não há nada mais grato para nós que a recordação dos últimos instantes de ventura a que se prendem os primeiros instantes da desgraça.
Aquelas linhas fastidiosas são a história da minha transfiguração. Aí principia a longa noite da minha vida.
Nos dias imediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os perigos da minha fraqueza, e quis ser forte. Resolvi não vê-lo mais : revesti-me de um orgulho digno da minha imodesta superioridade às outras mulheres : sustentei este caráter dois dias ; e, ao terceiro, era fraca como todas as outras.
Eu já não podia divorciar-me da imagem daquele homem, daquelas núpcias infelizes que meu coração contraíra. O meu instinto não era mau ; porque a educação tinha sido boa ; e, não obstante a humildade constante com que sempre sujeitei a minha mãe os meus inocentíssimos desejos, senti-me então, com mágoa minha, rebelde, e capaz de conspirar contra a minha família.
A freqüente repetição dos passeios de Vasco não podia ser indiferente a meu irmão. Fui suavemente interrogada por minha mãe a tal respeito, respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmão pressentiu a necessidade de matar aquela inclinação nascente, e expôs-me um quadro feio dos costumes péssimos de Vasco, e o conceito público em que era tido o primeiro homem a quem eu tão francamente me oferecia em namoro. Fui altiva com o meu irmão, e adverti-lhe que os nossos corações não tinham contraído a obrigação de se consultarem.
Meu irmão sofreu ; eu também sofri ; e, passado o momento da exaltação, quis cerrar a ferida que abrira naquele coração, desde a infância identificado com as minhas vontades.
Este sentimento era nobre ; mas o do amor não era inferior. Se eu pudesse reconciliá-los ambos ! Não podia, nem sabia fazê-lo ! Uma mulher, quando principia a sua dolorosa tarefa do amor, não sabe mentir com aparências, nem calcula os prejuízos que pode evitar com um pouco de impostura. Eu fui assim. Deixe-me ir abandonada à correnteza da minha inclinação ; e, quando forcejei por me tornar tranquila, à isenção da minha alma, não pude vencer a corrente.
Vasco de Seabra perseguia-me : as cartas eram incessantes, e a grande paixão que elas exprimiam não era ainda igual à paixão que me faziam.
Meu irmão quis tirar-me de Lisboa, e minha mãe instava pela saída, ou pela minha entrada a toda a pressa nas Salésias. Informei Vasco das intenções de minha família.
No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno de outra sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mãe, e foi urbanamente repelido. Eu soube-o, e torturei-me ! Não sei do que seria então capaz a minha alma ofendida ! Sei que foi capaz de tudo que pode caber em forças de uma mulher, contrariada nas ambições que nutrira, sozinha consigo, e conjurada a perder-se por elas.
Vasco, irritado num nobre estímulo, escreveu-me, como quem me pedia a mim a satisfação dos desprezos da minha família. Respondi-lhe que lha dava plena, como ele a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela porta da desonra, e muito cedo entraria nela com a minha honra ilibada. Que desgraça ! Naquele tempo até as pompas de estilo me seduziam !… Respondi que sim, e cumpri.
Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciência é curta. Até ao correio que vem.
Henriqueta.”
CAPÍTULO VI
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.