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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

- O mais que pudesses dizer seria um pleonasmo. Cifra-te nisto. Adão amou Eva, sabendo dizer muito menos, se me não engana o juízo que eu formo da organização das línguas. Os irracionais também se amam sem diálogo, se não devemos chamar diálogo ao gorjeio dos passarinhos e aos bramidos da leoa sedenta de amor, quando o querido lhe ruge da vizinha selva. Imitemos os bichos para sermos naturais alguma vez.

- Mas afinal - interrompeu Cibrão - que dizes tu?

Aconselhas-me que não vá a Carnide?

- Parecia-me imprudente...

- A boa hora me vens pregar prudências! Hei de ir, e tu vais comigo. Prometo dispensar os teus conhecimentos para me fazer entender. Conjugarei o verbo desde o tempo presente do modo indicativo até ao imperativo. Eu darei o braço à francesa e tu ficarás com a outra. A quinta está ajardinada com sombrinhas grutas de murtas; nestas grutas mora o amor; o amor nos ensinará a falar.

- Sendo assim... vamos.

E fomos.

A sege das meninas chegou pouco depois da nossa. Saltaram com buliçosa graça; e, sem biocos de cerim6onia ou pudor (pudor!... é o que faltava!), nos tomaram os braços.

“Je vous aime”, disse Cibrão à risonha criatura, osculando-a base do nariz. “Je vous aimerai ‘ternellement”, prosseguiu ele, levando-a consigo a doces repelões, com a impetuosa ternura que eu imagino em Júpiter, feito boi, para arrebatar a Europa.

E eu, para também me parecer com Júpiter, fiquei dizendo suavíssimas endeixas em prosa mélica, como aquele famoso cisne as cantava a Leda.

O meu amigo, com a sua flexível haste de tarlatanas e grinaldas artificiais no chapéu, desapareceu nos caramanchéis das murtas, onde o amor os esperava para lhes ensinar a vernácula linguagem.

A francesa, que me escutava as maravilhas amorosas em vasconço, era uma esbelta moça que devia ter sido muito festejada no seu Paris, antes dos trinta anos, e viera naturalmente reflorir a estranhos climas, em país de tolos, como este nosso, tolos esquisitos que, até no amor, adoram o galicismo, ainda mesmo que, na boa linguagem francesa, ele já tenha caído em desuso por antiquado e de mau quilate. Mademoiselle Florence Carlin era termo obsoleto lá na sua terra. Cá entre nós, andava encarecida nas palestras dos peraltas e requestada com finezas pelos mais gentis moços da roda (como quem diz enjeitados da fortuna), e com promessa de grosso cabedal por alguns velhos ricos, velhos digo ao dizer do vulgo, que em Lisboa só se sabe que Fulano ou sicrano era velho, quando morre, se a lista da mortalidade nos diz em que cemitério foi enterrado e os anos que tinha. Em Lisboa não há velho nenhum vivo. É freqüente ouvir a gente esta pergunta feita a um moço de cinqüenta anos: “Esteve em Sintra?” “Oh!”, responde, anediando a estriga do bigode encapada em lúcido verniz, “estive em Sintra, minha senhora.” “Estava muita gente no jantar da prima viscondessa?” “Sim, minha querida senhora marquesa; damas eram trinta; rapazes éramos vinte e sete.”

Tornando à francesa, coisa a que não pode chamar-se vaca-fria:

Dei-lhe uma idéia da minha alma. Contei-lhe os meus sofrimentos em demanda da mulher, que a fantasia em sonhos me vestia com as roupas cândidas do anjo. Disse-lhe mais que a sua imagem como resplendor de lua instantâneo, na horrível cerração de noite borrascosa, dans l’affreuse obscurité d’orageuse nuit, me tinha transluzido nas trevas do meu viver.

A francesa ouviu-me pasmada, e assim a modo de medrosa, como pomba, que se teme da garrulice dum papagaio. A cada movimento melodramático de minhas mãos davam-lhe rebate os nervos, com menos alvoroço de pudor que o de Virgínia nos assaltos lúbricos do decênviro Appius Claudius, de desonesta memória.

Convencida da inocência da minha mímica cobrou ânimo a dama e contou-me que era menina de boa família de Paris, e como tal se julgara digna consorte de um duque fementido, que a raptara e abandonara. À terceira tentativa inútil contra sua vida, resolveu a vítima do duque fugir de Paris para que a sua sociedade a não visse na perdição. Acaso soubera ela que uma notável modista francesa, estabelecida em Lisboa, mandara escriturar em Paris algumas oficias. Mademoiselle Elise de La Sallete mudou o nome, escriturou-se, e veio expiar a sua culpa na hora do trabalho. Eis aqui a história, que eu ouvi com os olhos marejados de lágrimas.

Depois desta revelação, a minha linguagem baixou a prosa vil; mas o sentir da alma era mais íntimo e nobre. Tratei-a com o respeito que impõe a desgraça, mormente se a vítima caiu do altar das adorações à ara negra do holocausto de sua santa e virginal confiança. Ao entardecer, quando Cibrão voltava dos maciços de arbustos, pedi licença à nobre infeliz para lhe apertar a mão e dar-lhe o nome venerável e venerador de amigo.

Despedimo-nos.

(continua...)

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