Por Camilo Castelo Branco (1864)
- Não - redarguiu Afonso -, que preciso estar a sós contigo, uma noite. Debaixo das telhas que cobrem minha mulher, os meus lábios não proferem o nome de outra. Ela já sabe que eu fico em Guimarães. Falarei, e tu ouvirás, ou dormirás. Falarei do homem que conheceste em 1851, para explicar o homem de 1863. Hás-de ver que lamaçais atravessei, que ressacas afrontei, como eu me bati de peito com as puas de ferro da desgraça, para chegar ao abrigo onde me encontraste. Não pasmarás então da minha velhice precoce; ser-te-á assombro a minha vida. Se és infeliz, consolar-te-ás. Se o não és, recearás sê-lo.
A noite, como sabem, era de Dezembro.
As onze horas consumiu-se de todo a vela. Afonso de Teive continuou a falar às escuras. Ao rasgar da manhã, abrimos as portadas, e Afonso falava ainda.
IV
No principio deste ano de 1864, saí de Ruivães, onde, por espaço de oito dias, me escondi à minha estrela funesta - a vigilantísima desgraça, que eu ia esquecendo. No termo deste prazo, estranhei o sossego das minhas noites, faltou-me a mão do Demônio que me arregaçava com dedos de fojo as pálpebras quebrantadas de sono, e fui à procura dele.
Deixei o meu amigo na cumeada do outeiro, vizinho de casa, com sua esposa e filhos. As últimas palavras dele foram: "Quando tiveres o livro escrito, deixa-me gozar a não vulgar satisfação de me ver personagem, e herói de um romance, que me promete uma imortalidade...".
- De quinze dias - interrompi eu.
Não longe da obscura paragem de Afonso de Teive, à margem do córrego chamado Pele, riacho, que pela primeira vez é revelado ao mundo em letra redonda, assentei eu a minha tenda nómada. A minha tenda são uns vinte volumes, um tinteiro de feno e um cabo de pena de osso, que me deram noutro ponto do mundo, onde há quatro anos assentara também a minha tenda - ponto do mundo que por um singular acaso implicava ao meu sestro vagabundo: era no ano do Senhor de 1860, nos cárceres da Relação do Porto, o menos conveniente dos paradeiros para homens de gostos impermanentes em objecto de aposentadoria. Isto, sem embargo, não impedia que esta minha tão querida pena, tão amiga confidente daquelas trezentas e oitenta noites – de Janeiro todas, que lá adentro dos congelados firmamentos de pedra reina perpétuo Inverno, e giam as abóbadas, não sei se lágrimas, se sangue, se água represada nos poros do granito -, não impedia vinha eu dizendo, que a minha pena, com o seu incansável fremir sobre o papel, me aligeirasse as noites, e aos assomos da alvorada me convidasse para a banca do trabalho, que foi meu altar de graças ao Senhor, e o confessionário onde abri minha alma ao perscrutar do anjo providencial que me dava a unção dos atletas e dos grandes desgraçados, para mais afrontosos e excruciadores suplícios.
Os meus vinte volumes, e o meu tinteiro de ferro, estão hoje sob o tecto gasalhoso de uma alma que eu noutras eras encontrei na minha. Não sei há que séculos isto foi, nem que congérie de abismos nos separam para sempre. Parei aqui, porque ainda aqui, há tempos, se me figura rediviva a imagem do passado, ainda aquela alma se me hospeda no coração em instantes de sonhos do Céu, ainda a pedra tumular das afeições caídas à voragem infernal do desengano está pendida sobre a derradeira: que a saudade é ainda um afecto, excelso amor, o melhor amor e o mais incorruptível que o passado nos herda.
A casa onde vivo rodeiam-na pinhais gementes, que sob qualquer lufada desferem suas harpas. Este incessante ruído é a linguagem da noite que me fala: parece-me que é voz de além-mundo, um como burburinho que referve longe às portas da eternidade. Se eu não amasse de preferência o sossego do túmulo, amaria o rumor destas árvores, o murmúrio do córrego onde vou cada tarde ver a folhinha seca derivar na onda límpida; amaria o pobre presbitério, que há trezentos anos acolhe em seu seio de pedra bruta as gerações pacificas, ditosas e incultas destes selvagens felizes que tão iluminadamente amaram e serviram o seu Criador. Amaria tudo; mas amo muito mais a morte.
Aqui, se Deus se amercear de mim, embargando o passo ao anjo exterminador, que contínuo me assalteia os áditos do meu éden de quinze dias, aqui escreverei, com quanta fidelidade a memória me sugerir, a narrativa que Afonso de Teive me fez.
Seis meses há que se fez noite no meu espírito. Por arrebatados ímpetos de quem quer furtar-se às garras de um imaginário dragão, tenho fugido para defronte do meu tinteiro de ferro e evocado as graciosas imagens, filhas do Céu, que, nos dias da mocidade fremente de más paixões, me refrigeravam a fronte e disputavam ao encanto do mal, salmeando-me o hino de amor ao trabalho. O perdimento desse amor foi a suprema provação, a forja ardentíssima em que minha alma foi lançada à voracidade de um fogo depurante. Mas, no interior, por tudo em que sombreava a negrura do coração, eram tudo trevas, frio, letargia, esquecimento.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.