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#Contos#Literatura Brasileira

Uma por outra

Por Machado de Assis (1897)

Sim, o casamento aparecia-me como uma necessidade cada vez maior. Tratei de ir preparando as cousas de modo que, uma vez formado, não me demorasse muito. Antes disso, era impossível que meu pai consentisse. Estela estava por tudo; assim mo disse em prosa e verso. A prosa era a das nossas noites de conversação, ao canto da janela. O verso foi o de um soneto em que se comparava à folha, que vai para onde o vento a leva; o fecho era este:

Eu sou a folha, tu serás o vento.

Ao recordar todas essas cousas, sinto que muitas delas era melhor que se perdessem; revivê-las não paga o esforço, menos ainda a tristeza, a saudade, ou como quer que chamemos a um sentimento que, sem levar a gente a detestar o dia de hoje, traz não sei que remoto sabor do dia de ontem... Não, não deixo o meu cartório de tabelião do Ceará; na minha idade, e depois da minha vida, é o melhor Parnaso que conheço. As escrituras, se não rimam umas com outras, rimam com as custas, e sempre me dão algum prazer para recordar versos perdidos, de par com outros que são eternos... Fiquemos tabelião.

Íamos passando o tempo, sem grave incidente, quando uma tarde o pai de Estela entrou em casa, anunciando à mulher e à filha que tinha de ir a S.Paulo. Não compreendi por que razão D. Feliciana empalideceu. Era uma senhora de vida severa e monótona, sem paixões, sem emoções. Depois é que me contaram algo que me explicou tudo. O marido de D. Feliciana tinha agora os negócios complicados, e parece que uma vez falara à mulher em fugir do Rio de Janeiro. Foi o que me disseram uns; outros falavam de amores. Tudo era mentira, mas D. Feliciana creio que teve medo de uma e de outra cousa, senão de ambas, e, com uma doçura incomparável, murmurou:

— Guimarães, leva-me a S. Paulo!

Guimarães recusou; mas a esposa insistiu, alegando que tinha imensa vontade de ver S. Paulo. Como o marido continuasse a negar, dizendo-lhe que ia a negócios e não podia carregar família, além de ser um desarranjo, a mulher trocou de maneiras, e pôs nos olhos tal expressão de desconfiança que o fez recuar.

— Vamos todos, Guimarães; havemos de ir todos a S. Paulo.

— Sim, podíamos ir... mas é que... por tão pouco tempo... cinco ou seis semanas, dous meses... Valerá a pena, Feliciana? Mas, vamos, se queres; os vapores são pouco cômodos.

Olhei para Estela, pedindo-lhe com o gesto que interviesse contra o desejo da mãe. Estela empalidecera e perdera a voz; foi o que me pareceu, mas a prova do contrário é que, passados alguns instantes, como ouvisse ao pai dizer que sim, que iriam a S. Paulo, suspirou esta palavra cheia de resignação e melancolia:

— Outra vez o mar! Um dia ir-me-ei ao fundo, procurar a pérola da morte!

— Dias de poesia, menina! ralhou a mãe. O mar até faz bem às pessoas. As nossas despedidas foram o que são despedidas de namorados, ainda por ausências curtas de um ou dous meses. Na véspera da minha partida tivemos inspiração igual, compor uns versos em que chorássemos a dor da separação e ríssemos a alegria da volta. Ainda desta vez os versos dela eram melhores; mas, ou a tristeza ou outra cousa fez-lhe crer o contrário, e gastamos alguns minutos em provar, eu a superioridade dos dela, ela a dos meus. Não menos namorado que poeta, murmurei finalmente:

— Quaisquer que sejam eles, os melhores versos são as tuas lágrimas. Estela não chorava; esta minha palavra fê-la chorar. Mordeu o beiço, levou o

lenço aos olhos, e disse com um tom único, um tom que nunca mais esqueci:

— Já sei! é que os meus versos não prestam para nada, são próprios para o fogo; nem arte nem inspiração, nada, nada!

— Que dizes, Estela?

— Basta: compreendo. O senhor nunca me teve amor.

— Meu anjo!

— Nunca!

Não pude pegar-lhe na mão; correra à janela. Como eu ali fosse também, entrou novamente. Só depois de grande resistência consentiu em ouvir gabar-lhe os versos e explicar a preferência dada às lágrimas; era por serem dela. As lágrimas, disse-lhe eu, eram os próprios versos dela mudados em pérolas finas... Estela engoliu um sorriso vago, enxugou os olhos e releu para si os versos, depois alto, depois quis que eu os relesse também, e novamente os releu, até que o pai veio ter conosco.

— Doutor, disse-me ele, e se fosse também conosco?

— A S. Paulo?

— Sim.

— Iria, se pudesse. Já pensei nisso, mas os exames do fim do ano...

— Também são apenas dous meses, ou menos.

(continua...)

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