Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Anedotas#Literatura Brasileira

Qual dos dois

Por Machado de Assis (1872)

Valadares começava a sentir a necessidade de descer do Corcovado; a idéia de que estava ligado para sempre era um verdadeiro pesadelo que lhe sufocava o espírito. Verdade é que a sua liberdade não estava tolhida; os boudoirs célebres que freqüentara outrora começaram a festejar a volta do filho pródigo. Mas era sempre um vínculo, o pobre já sentia que este o apertava. Podia ser de rosas; mas achou-o de ferro.

Amélia casara com Valadares como casaria com outro qualquer; simples mudança de estado. Comprou a liberdade sob a forma de uma prisão. Contratou um braceiro para os dias em que lhe conviesse sair a pé; e um protetor para abrigar a sua existência, a sua reputação. Com estas condições, qualquer noivo lhe servia. O que estava mais à mão foi o escolhido.

Imaginem já por aqui qual era alegria conjugal daquelas duas criaturas. Não tardou que o aborrecimento viesse sentar-se no lugar que o amor não ocupava; em vez de dois entes unidos por um grande sentimento achavam-se como dois condenados ligados pela mesma calceta, com a diferença que a comunhão do infortúnio e do crime estabelece certa simpatia entre os dois condenados, a qual debalde se procuraria entre Valadares e a filha de Seabra.

Começava a dissolver-se a forma conjugal; não se precisava ser águia para adivinhar que, dentro de pouco tempo, a casa liquidaria e os dois achariam na separação um remédio aos seus males.

Ora, este espetáculo e esta previsão desagradavam profundamente a Daniel, que morava com os dois, segundo se disse acima. Um dia de manhã, resolveu mudar-se, e assim o declarou aos donos da casa.

— Mudar-se? exclamou Amélia. E por quê?

— Porque devo morar só; além disso, está com o meu gênio.

— Se assim é, observou Valadares, não te obrigo ao contrário. Mas hás de vir jantar comigo todos os dias...

— Todos os dias, não sei, respondeu Daniel.

— Já tem casa? perguntou Amélia.

— O meu procurador, respondeu Daniel, disse-me ter encontrado uma em Mata-cavalos.

— Ah!

A mulher de Valadares sorriu maliciosamente; o marido, por imitação, sorriu também. Daniel viu os sorrisos e pareceu-lhe compreender.

— Mas que tem isso? perguntou ele.

— Nada, acudiu Amélia, quer dizer que está mais pertn.

— De quem?

— Ora de quem! dela!

— Não conheço!

— Augusta.

— Ora!

Daniel respondeu com uma expressão que simulava indiferença; mas, se devo confessar a verdade, não o era. Quando o procurador lhe trouxe a notícia de que havia casa na Rua de Mata-cavalos, o rapaz estimou a notícia e aceitou a casa.

— O fato é, disse Amélia, que ela pensa no senhor.

— Em mim?

— Cuido que sim, porque há dias, indo eu lá, duas vezes me perguntou se estava bom. Quando me perguntou a segunda vez sorri, como há pouco fiz, e ela protestou calorosamente, mas debalde; via-se que era um protesto aparente.

Daniel ouviu atento as palavras de Amélia.

— E que não fosse! disse ele; como eu não vou para lá por causa dela...

— Creio, respondeu Amélia, mas o fogo ao pé da pólvora...

— Eu não sou pólvora, nem fogo...

A conversa ficou aqui. Daniel, daí a dias, estava completamente mudado. A casa de Daniel ficava do lado oposto ao da casa de Augusta, e um pouco distante, mas ainda assim podiam ver-se de uma janela; e ele a viu no primeiro dia, depois, nunca mais a viu. Seria fortuito ou expressivo? Não sabia.

X

No fim de quinze dias, recebeu Daniel um bilhete do tio de Augusta convidando-o a ir passar a noite com ele.

Deveria ir? Sem dúvida que sim. Não queria parecer que se metia à cara da moça. O orgulho lutava nele por dois modos; lutava, retendo-a para não parecer que a adulava; lutava, impelindo-o para lá, a ver se triunfava dela. É difícil que, de uma luta colocada neste terreno, venha bom resultado.

Daniel só pela tarde adiante resolveu ir à casa de Augusta.

Era uma reunião íntima; conversou-se e tocou-se; não se dançou.

O tio de Augusta desejou que Daniel considerasse a casa como sua; que se não prendesse por simples consideração de cerimônias enfadonhas. Posto que Daniel tivesse em pouco a conversa das salas, não por desprezo refletivo, mas por gênio e educação, todavia, não ficava na sombra desde que lhe fosse necessário desempenhar-se como cavalheiro polido. Tinha natural espírito; sua conversa era fácil, brilhante, sem ser profunda, coisa que agrada absolutamente às mulheres. Além disso, o rapaz queria impor-se no espírito da moça; e como fazê-lo senão por meio desses triunfos de eloqüência familiar?

Mas Augusta parecia conhecer todas essas armas e a intenção com que eram manejadas; tratou Daniel como a todos os outros, em perfeito pé de igualdade. Nem lhe concedeu desta vez a distinção do desdém, que tanto agrada a certos caracteres; nivelou o com as demais pessoas.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →