Por Machado de Assis (1867)
Este era o meio razoável, se porventura a lei do jogo, que é uma lei arbitrária como o próprio vício em que se funda, não o obrigasse a um prazo breve e fatal. tio de Carlota pensou nisto e desanimou. Era um abismo que tinha diante de si. Os recursos de Carlota, que eram escassos, não podiam, no caso de generosidade da moça, servir para uma quinta parte da dívida. Era despojá-la do patrimônio sem proveito. O desgraçado, sem saber que fazia, sem meios reais, nem recursos da imaginação, saiu um dia de manhã em direção à casa de Venâncio.
Devo dizer que, já antes do desastre que fez de Venâncio um pesadelo para o tio de Carlota, o credor freqüentava a casa deste.
O tio de Carlota entrando em casa de Venâncio não tinha uma idéia a apresentar; ia conversar e apanhar a primeira idéia que lhe sugerisse a conversa, ou aceitar o projeto razoável que o credor lhe indicasse.
Venâncio recebeu o devedor com o mais amável dos sorrisos nos lábios. Isto animou o desgraçado devedor.
— A que devo a sua visita?
— Não adivinha?
— À dívida?
— É verdade.
— Vem pagá-la? Não havia pressa.
— Não, não venho pagá-la.
— Ah!
Vê-se que este intróito não era dos mais animadores. O tio de Carlota calou-se e mudou de conversa, sendo acompanhado no novo assunto por Venâncio, que se porfiava em ser o mais amável deste mundo.
Depois de meia hora de conversa sobre coisas diferentes, Venâncio voltou bruscamente ao assunto da dívida.
O devedor empalideceu.
Que responder?
Os olhos de Venâncio estavam pregados nele, e quanto mais corriam os minutos, mais vazio se achava o espírito do tio de Carlota.
Enfim, como era preciso responder alguma coisa, o pobre homem disse francamente que não podia pagar, e que nem lhe ocorria o meio para isso.
Venâncio sorriu e respondeu:
— Pois é simples. Há três dias que a fortuna me desampara, e como velho jogador que é, deve saber que ela tem seus caprichos e muitas vezes abandona os antigos aliados para acompanhar outros novos. Talvez que ela hoje esteja do seu lado.
O tio de Carlota estremeceu a esta proposta. A alma do jogador despertou e sentiu-se arrastada para a banca. Ganhar em dois minutos tudo o que perdera, ver-se de um só lance aliviado de uma obrigação e de um peso no espírito, era para o devedor a suprema felicidade.
Não hesitou, senão o tempo necessário ao espanto que lhe causava a proposta, e levantando-se, com as mãos estendidas para Venâncio, declarou-lhe alvoroçado que aceitava.
Tudo se preparou para o duelo fatal.
Diante da mesa em que se ia decidir a sua sorte, o tio de Carlota cobrou novo ânimo. Venâncio estava frio e tranqüilo. Parecia que não jogava dinheiro, e dinheiro avultado. O tio de Carlota acompanhou a partida ansioso e atordoado. Não respirava, com a mão oprimia o coração e com os olhos parecia querer arrancar do baralho a carta feliz... Infeliz! a carta que saiu dava ganho a Venâncio.
O tio de Carlota soltou um grito.
— Quer mais? perguntou friamente Venâncio.
— Não! não!
— Deve-me o dobro.
— Como lhe poderei pagar? Oh! meu Deus!
— Não se aflija, disse o credor. Isto não é sangria desatada; não lhe exijo agora o pagamento; pode pagar amanhã, depois, daqui a um mês... e até...
— E até?
— Até nunca.
— Nunca!
— Nunca.
A estranheza das palavras de Venâncio e o ar frio que ele apresentava fizeram impressão no tio de Carlota.
— Explique-se, disse ele.
— É simples. Há de crer que por muito exigente que eu fosse nunca poria em sérias dificuldades um tio. A um estranho é possível, é até certo, mas a um tio... Ora, nada impede que eu seja seu sobrinho.
O tio de Carlota não compreendeu e não respondeu.
— Não compreendeu? perguntou Venâncio.
— Meu sobrinho, como?
— Não tem uma sobrinha? perguntou Venâncio.
— Ah!
Venâncio expôs demoradamente a sua pretensão. Pediu formalmente a mão de Carlota. O tio hesitou ainda, disse-o ao menos depois à sobrinha, mas este casamento era a sua salvação. Depois, Venâncio tivera o cuidado de convencê-lo de que ele não era indiferente à viúva. Enfim, quando saiu da casa de Venâncio, o tio de Carlota deixou-lhe prometida a mão de sua sobrinha.
Quando esta ouviu de seu tio a proposta de Venâncio, repeliu-a peremptoriamente. Mas o tio, entre as lágrimas da sua conveniência, chegou a convencer a pobre moça de que casar com Venâncio era salvá-lo da desonra. Carlota pediu dilação para refletir. A reflexão foi contrária ao coração. Carlota aceitou a proposta, não sem exprobrar a seu tio a funesta paixão que o seduzira a cometer um ato de aviltamento.
Quanto a Venâncio, ela teve o cuidado de declarar-lhe que impunha uma condição.
— Aceito todas, respondeu Venâncio.
— Faço o sacrifício da minha pessoa, mas exijo ao menos eu não seja mulher de um jogador.
— Juro-lhe que não será.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O último dia de um poeta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.