Por Coelho Neto (1890)
Sim, um elogio rasgado diz menos, e com menor expressão, do que quatro ossinhos lisos, chuchurreados, no meio do prato raspado. Pensou em atirar ao corredor os restos do banquete, mas não: queria que a generosa dama e o sábio cozinheiro vissem, com orgulho, que tudo havia comido, com escrupulosa gana, não deixando senão o que de todo lhe fora impossível engolir, como ossos e caroços. Esgotou a garrafa e, saciado, num bom humor de fartura, foi rebuscar no colete uns níqueis e deu-os à estupenda mulher que, à luz branda do luar, parecia menos aterradora e pesada. Oh! a delícia da saciedade!
— Deus lhe pague!
— Pede-lhe antes que me traga os sapatos. A mulher não entendeu e, guardando as moedas cautelosamente no seio, que era um outeiro em volume, tomou a bandeja e foi-se levando os ossos e novecentos réis. Anselmo acendeu um cigarro e debruçou-se à janela, enlevado na beleza da noite e, com os olhos no céu, pôs-se a recitar baixinho:
Le mal dont j'ai soulfert s'est enfui comme un rêve,
Je n'en puis comparer le lointain souvenir
Qu'à' ces brouillards légers que l'aurore soulève Et qu'avec la rosés on voit s'évanouir.
Era a primeira estrofe da "Noite de Outubro" de Musset e ia aos versos da Musa:
Qu'aviez-vous donc, o mon poète! quando Ruy Vaz apareceu no corredor. Anselmo sentiu a alma dilatar-se.
— Fui além da hora. Ah! meu amigo, se não fosse lembrar-me que estavas aqui descalço teria passado a noite a desfolhar malmequeres. Esplêndida criatura!
Atirou o chapéu sobre a mesa e respirou desafogadamente, Divina mulher! E tu? Como te foste? Leste as odes?
— Não: reli Baudelaire, dormi até a noitinha e, como estava com o estômago em condições de Deus poder reproduzir o milagre da criação do mundo, fiz de Elias aceitando um jantar que me caiu do céu.
— Eis aí um hotel que ainda não me forneceu pensão. Mas sem frase: — Onde jantaste?
— Aqui. O luar foi a toalha; jantei sobre a tua mesa de trabalho.
— Mandaste vir de algum hotel?
— Não. Apareceu-me a Providência, não como ao profeta sob a forma de um corvo — mas disfarçada em exuberante mulata...
— Vê lá! Não tenha o demônio armado uma cilada ao teu estômago.
Também a Santo Antão foi servida uma mesa lauta e todavia...
— Não, a mulata veio em nome de uma misteriosa mulher saber se aparecias hoje.
— Uma mulata monstro?! Uma mulata em dois volumes?! a Januária! A Januária da Elvira! exclamou o romancista.
— Não sei; eu tinha fome e não tinha sapatos.
— E pediste jantar...?
— Não; nada pediste. Digo assim porque a mulata tomou-me por ti, no escuro; disse apenas que não contasse contigo porque, havendo torcido um pé, estavas impossibilitado de sair. Devo o jantar à sagacidade da mulata. Retirou-se tornando, pouco depois, com uma bandeja opípara. Entendi que não te ficava bem fazer cara a tão saborosos e perfumados pratos e tratei-os com a deferência de que eram dignos.
— Essa agora!
— Estás preocupado...?
— Com razão. Essa mulher, essa nefanda Elvira, é uma pérfida; traiu-me e com o meu alfaiate e eu tinha jurado cortar de uma vez para sempre o fio que nos ligava e agora...
— Acho que fazes mal. Uma mulher que janta como essa deve ser excelente menagére. Não a conheço senão através da sua cozinha; não sei se é loura, se é morena, se tem os olhos pretos ou garços, juro, porém, que tem em casa um admirável cozinheiro.
— Um coração volúvel como uma nota de mil réis. Enfim, o mal está feito; não quero interromper a tua digestão... e está aberto o precedente para os dias nefastos. Começas bem, não há dúvida. Outros andam atrás de jantares e a ti vêm os jantares, e com sobremesa. Hás de dar-me o segredo do teu talismã. Podes ir longe, principalmente se subires mais um ponto no calçado; tens o pé demasiadamente seco, é um Ceará. Devolvo-te os sapatos. Anselmo calçou-os imediatamente e, vendo que o romancista procurava alguma coisa debaixo da cama, riscou um fósforo.
— Obrigado. Cá estão eles. Arrastou um par de veneráveis botinas, nas quais os pés desapareceram como por encanto e respirou. O bom filho à casa torna. Não há nada como a liberdade. Como me sinto bem na largueza... Nem parece que estou calçado.
Anselmo vestiu-se e, vendo que o romancista passava a escova nos cabelos e retorcia os bigodes, perguntou:
— Vais sair?
— Vou ao Sant'Ana. Tenho lá uma peça, quero ver se o Heller resolve alguma coisa. Por que não vens? Está uma noite linda e fresca.
— Posso ir.
— Então vamos. Estamos na hora e tenho ainda de passar no meu charuteiro para apanhar uns colarinhos. Fecharam a janela e a porta e saíram.
Foram seguindo devagar, à luz da noite, sob a carícia do ar, fino e tépido como um hálito humano.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.