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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

"É verdade que não deixo de ser estimado na povoação porém não vejo quem, a não ser o meu excelente padre, leve essa estima até a dedicação..."

Na cozinha trabalhava Ruperto, esfregando umas facas, e de sobre o fogão subiam filetes de odorífero fumo deixado escapar pelas janelas mal fechadas, onde fervia ruidosamente o almoço.

O escravo, ao chegar o senhor, levantou a cabeça, continuando diligentemente o trabalho.

— Vem daí, disse-lhe Eustáquio, e segue para S. João do Príncipe. Lá dirás ao padre Jorge que me envie os paraenses que já aqui estiveram, há talvez dois anos. Convém que tomes o cavalo para maior segurança e presteza.

Logo em seguida um robusto animal relinchou no roseiral e, montado pelo escravo, internou-se pela picada em trote rápido.

Depois de sepultado o cadáver do que sucumbira ao golpe de um anjo tutelar, os engajados reentraram em casa do protetor de Rosalina, e este, observando que os atentados iam tendo já lugar em pleno dia deu começo à construção de uma sólida muralha de madeira que devia limitar as suas terras, não só do lado do campo e da montanha como do da mata e do Iapurá.

Dentro de três dias os valentes filhos do Pará, de machado em punho, abateram troncos, fincaram-nos circularmente, levantando em volta da casa uma trincheira de seis pés de altura eriçada de pontas agudas, previamente aparadas nos postes, que podia desafiar um bando de malfeitores.

— Creio, disse o seu esposo a Branca, que, metidos neste baluarte, estamos perfeitamente a salvo.

— Não o creio eu, replicou com ar incrédulo a moça, e só me acharei segura quando longe daqui. Tanto, que sinto muito não estar neste momento em Manaus ou em Belém.

— Se é do seu desejo, Branca, falou tristemente Eustáquio, como quem está contrariado na sua vontade, podemos desde hoje nos preparar para a retirada, mas ou me engano inteiramente, ou não corremos mais risco algum.

— Enfim..., disse Branca, cortando o diálogo. Esse "enfim" exprimia muita cousa. Era a resignação passiva da jovem à persistência do marido e ao mesmo tempo a passagem da responsabilidade de qualquer desgraça para cima de Eustáquio.

CAPÍTULO VIII

POMBA E SERPENTE

Estava-se a 14 de setembro de 186...

Reinava imensa alegria em casa de Eustáquio.

Branca dera à luz oito dias antes, isto é na véspera da maior festa nacional do Brasil, o aniversário da sua independência do jugo português, uma criancinha bela como um cupido que, passando de mão em mão, recebia afagos de toda a sorte da família inteira, sem excetuar uma mocinha de S. João do Príncipe, dedicada e constante veladora da esposa do ex-subdelegado, durante os incômodos que precederam o parto.

Por todos esses dias a família se entregara exclusivamente ao prazer e também no povoado todos estavam contentes.

Durante a noite, melodias campestres se elevavam das habitações da vila, cujas cúpulas de palha, servindo de pedestal a um mocho sombrio, brilhavam docemente aos ósculos luminosos do luar.

Lá dentro, entre suas pobres paredes de barro, mãos de rústico, lassas do ferro agrícola, tiravam das cordas de uma viola acordes cadenciados, de um encanto que só pode avaliar quem já os ouviu, os quais mergulhando na floresta iam suavizar o sono das avezinhas.

Estava-se, já o dissemos, a 14 de setembro.

A julgar pela força com que os raios de sol enchiam a atmosfera, sob o azul puro e claro do céu americano deviam ser nove horas, quando menos.

O leitor colocado no meio dessa planície que se desdobrava ao poente da habitação havia de presenciar o seguinte:

Rosalina, alegre como sempre, chegou risonha à janela, cantarolando a delicada poesia de Dirceu:

Como alegre vem nascendo A serena madrugada! Já d'aurora a luz dourada Duvidosa vem raiando.

E tu descansando Marília formosa, Escutar, etc.

Toda a sua atenção estava pregada em uma rosa pendente dos últimos ramos de uma esguia roseira que chegava a altura da janela. Estendeu o bracinho mimoso, coberto apenas por uma manga que nem lhe chegava ao cotovelo, tomando cuidadosamente entre dois dedos a flor, menos linda que ela e, depois de saborear os seus perfumes, entrou a contemplá-la conversando talvez em muda linguagem. As flores e as crianças se compreendem. Na mesma ocasião uma pessoa descendo sorrateiramente da colina escalou ousadamente a alta cerca de traves novamente construída, penetrando no roseiral. Esgueirou-se pela parede até pouca distância da janela ocupada pela menina, apontando-lhe uma pistola, depois de olhar várias vezes para trás e para um lugar onde poderia distinguir alguns olhos à espreita por entre as tábuas do cercado.

Que quadro! A candura e a inocência de um lado, de outro a perversidade e o crime.

Ia ressoar o tiro e Rosalina estava morta, mas a Providência velava.

(continua...)

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